BOM DIA, BOA TARDE, BOA NOITE, COM QUEM EU FALO?

“Oi, Berg, bom dia com quem falo?”. Meu dia começa quando digo esta frase. Aparentemente um dia normal e sem nenhuma preocupação, até o primeiro cliente logo de manhã já me aparecer bem estressado. — Até que enfim alguém me atendeu! Quanta demora, hein? — Com quem falo? Sempre faço essa breve pergunta quando um desses me aparece. — Marcos — Certo, Marcos, em que posso ajudá-lo? Em meus pensamentos só achava que aquela ligação iria durar ao menos uns dez minutos, quando me surpreendo com o pequeno problema daquele cliente, onde se tinha que fazer apenas um pequeno aprazamento de sua fatura. — Pronto, Marcos, já abri o registro e aprazei seu vencimento por mais cinco dias para que não tenha problemas com juros e multas. — Ele agradeceu pelo rápido atendimento e desligou. Sempre que um cliente desliga, nós, os operadores, sonhamos em ficar disponíveis, nem que seja por míseros dez segundos, mas nossa realidade é bem diferente, desliga um, aparece outro, quase sempre sem intervalo. De ligação em ligação, rápido chega o primeiro descanso, dez minutinhos para ir ao banheiro, tomar um café, conversar ou assistir a algum programa de televisão. — Oi, Berg, boa tarde, com quem falo? Com esta frase começa o turno da tarde, atendendo uma pessoa bem particular. — Boa tarde, me chamo Rafilda. Esse é o breve momento que rimos e pensamos no porquê de um nome assim. — Em que posso ajudar Rafilda? — Meu filho, meu telefone esta bloqueado para celular e não pedi esse serviço. — Entendo, aguarde um momento enquanto verifico. Como é um procedimento simples, pois foi apenas uma falha sistêmica, essa ligação é perfeita para relaxar um pouco e até mesmo conversar com algum colega ao lado. — Pronto, Rafilda, verifiquei que era apenas uma falha e já abri o registro de reparo, o prazo é de até vinte e quatro horas para normalizar. — Obrigado pelo atendimento Berg. — Eu que agradeço a sua ligação tenha uma boa tarde.

Como não poderia faltar em um dia de trabalho, à hora do lanche chega, agora tenho vinte minutos para engolir algo, tem que ser rápido, um minuto de atraso no lanche equivale a um minuto de desconto no meu contracheque. Voltando do lanche, e já é bem próximo do turno da noite, quando crianças já chegaram da escola, sabem do que estou falando? Isso mesmo, trotes, pelo menos dois no dia tenho que receber. — Oi, Berg, boa noite, com quem falo? — Com o Diabo. — falou alto uma voz fina de criança. — É mesmo? Papai-do-céu vai te buscar daqui a pouco para te levar de volta para seu lugar, tá bom?. Levo trotes como descontração e brinco também. — Por motivo de trote, a ligação será encerrada. Encerrado o trote, finalmente chegam os dez minutos finais do expediente. Logo pensei que nunca mais iria fazer duas horas extras por serem muito cansativas. E finalmente volto para casa tranquilo, onde penso apenas em tomar um banho e dormir, para quando acordar amanhã ocorrer tudo de novo.

Não há nenhuma flor no asfalto.
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