Precisamos falar sobre Ex(s)

Nos últimos dias eu me vi (mais de uma vez) no meio de uma discussão bastante complicada sobre algo que eu nem sei definir bem. A mania que nós temos de demonizar ou alienar ex namoradxs.

"Aquelx minha/meu ex é loucx, viva dando piti, arrumando briga por besteira!"

"Aquela pessoa é o demônio, acabou com a minha vida!"

"Eu não quero ver fulanx mais nem pintadx de ouro"

e tem o bom e velho:

"Ex é igual saudade, só é bom quando a gente mata"

Pois bem, nas discussões sobre este assunto percebi um forte desconforto de algumas mulheres ao falar sobre isso.

"Será que meu atual vai falar de mim assim se um dia agente terminar?"

Durante a semana eu parei algumas vezes para refletir sobre o assunto e comecei a fazer uma retrospectiva de todos os meus relacionamentos. Não, isso não é perigoso. As vezes é bom exercitar a memória e a reflexão.

Uma das coisas que percebi ao fazer essa retrospectiva, é que em um relacionamento afetivo nós sempre entregamos o melhor de nós para outra pessoa, pra que ela desfrute das nossa melhores intenções, qualidades e objetivos. Espera-se também que essa entrega seja reciproca.

Então surgiu a dúvida:

Se sempre damos o melhor de nós a um relacionamento, então por que as memórias que levamos dele são tão ruins?

Bom, por partes. Vamos à retrospectiva:

As experiências que vivemos ajudam a moldar nosso caráter.

Durante relacionamentos passados e na maioria das vezes em função do relacionamento eu tive experiências incríveis: Aprendi a gostar de cerveja, fumei maconha pela primeira vez, conheci bandas incríveis, músicas incríveis, filmes incríveis, gírias incríveis, aprendi coisas incríveis sobre os mais variados assuntos (filosofia, ciências sociais, música, cinema, fotografia, artes plásticas, RPGs, etc…), e até mesmo a faculdade que eu escolhi fazer tem a ver com uma ex. A maioria dessas coisas fazem parte da minha vida até hoje, e de formas extremamente positivas.

As bandas e músicas que conheci com outras namoradas ainda fazem parte das minhas playlists. Eu ainda frequento os bares que conheci com outras namoradas, os filmes incríveis que assistimos juntos ainda são incríveis e eu continuo amando esses filmes. A primeira cerveja que eu aprendi a gostar com uma ex, ainda é a minha cerveja favorita. E essa lista de coisas de ex que ainda fazem parte do meu cotidiano é gigantesca.

A verdade é que todo relacionamento nos faz crescer e amadurecer de alguma forma. Até mesmo os mais problemáticos e traumáticos e que mais nos fazem sofrer podem nos ensinar a não cometer alguns erros, ou a não arriscar certas coisas, ou até mesmo a evitar certos tipos de relacionamento.

Quero te propor um exercício. Faça uma retrospectiva dos seus relacionamentos passados e tente listar, mentalmente mesmo, todas as coisas boas que você carrega de cada relação. Eu imagino que na maioria dos casos a lista de coisas boas seja muito maior do que a das coisas ruins.

Outra coisa que percebi ao fazer essa retrospectiva é que lembrar de algumas coisas me incomoda. Quando tento reduzir de alguma forma alguma ex, ou a relação que tínhamos, é mais uma tentativa de arrancar de vez de dentro de mim tudo o que restou dela, e algumas vezes fiz isso em público ou em voz alta para tentar reafirmar para as outras pessoas, para a minha noiva e pra mim mesmo que não há mais nada delas em mim.

Mas a verdade é que há. E muito. Relacionamentos de 2, 3, 4 anos são intensos demais para não deixar nenhum rastro. A verdade é que carrego comigo pedaços de várias pessoas que me tornaram o homem que sou hoje. E tenho certeza que minha noiva também carrega um pedaço de alguém, assim como todas as minhas ex carregam um pedaço meu e assim com você carregam pedaços de outras pessoas que passam pela sua vida.

Estou falando especificamente de relacionamentos afetivos, mas isso é aplicável a qualquer tipo de relacionamento. Amizade, relacionamento profissional, parental, fraternal, etc… Todo relacionamento nos faz crescer de alguma forma.

Precisamos valorizar aquilo de bom que as pessoas deixam em nossas vidas e aprender a enxergar a contribuição de cada um na construção do nosso caráter através das experiências que compartilhamos.

Eu escrevi esse texto sem ter chegado a nenhuma conclusão prática. Apenas transcrevi os pensamentos que tive a respeito do tema. E acho que é melhor assim. Não sou muito fã de fórmulas, do tipo "como esquecer de vez seu ex…". Acho que cada um deve pensar sobre o assunto e chegar as próprias conclusões.

A única coisa que concluo é: valorize o seu passado. Isso é importante para entender quem você é e como chegou aonde está.