Se eu fosse escrever um texto de autoajuda, seria esse
Com um punhado de tempo livre e uma caminhada sem destino me ponho a pensar sobre a vida. Ultimamente o foco dessas andanças intelectuais sou eu mesmo e o que vim fazer nesse mundo. Ainda não respondi a essa pergunta. Sinceramente, nem cheguei perto de fazê-lo. Porém, às vezes sai uma coisa ou outra que vale a pena analisar.
Gosto de pensar que estou em constante construção. Volta e meia, um sentimento de mudança se apodera de todas as minhas faculdades mentais e me guia a algo novo. Essas mudanças ocorrem em maior ou menor escala e são completamente aleatórias. Às vezes, se manifesta como uma cabeça raspada no dia da foto de formatura. Às vezes, em uma escapada de um ano do país. Vivemos embebidos na sociedade do capital, então geralmente se vêem mais carecas que fugas elaboradas. O que me intriga nesses lapsos é que, por mais que não saiba sua motivação, sei sua origem: outras pessoas.
Não importa se um transeunte ou meu irmão siamês; uma profunda amizade de décadas ou uma olhada acidental para a cara de alguém que passa na rua. As pessoas são o motivo dessas mudanças. Até aí tudo bem. Não basta, porém, saber sua origem. É preciso saber por quê.
Resolvi ir mais a fundo, investigar, descobrir por que as pessoas ao meu redor são inspirações para o que eu decido fazer na minha vida. Como sou meio preguiçoso não tomei notas nem montei um quadro na parede conectando suspeitos com barbante vermelho. Mas me dediquei a observar meu comportamento e o dos outros, traçar algumas semelhanças na cabeça e chegar a uma conclusão semi-científica, com cara mais de ficcional que qualquer outra coisa, e escrever sobre isso.
A tarefa não foi fácil. Estando longe dos amigos e família, grupos que provavelmente mais influenciam meu comportamento, o trabalho foi mais penoso. Todavia, o afastamento me ajudou a ver algumas coisas de forma mais clara.
Eu não existo sozinho. Essa foi minha primeira conclusão. Que me desculpem os eremitas mas eu preciso dos outros pra viver. E, a fim de manter minha autoestima em níveis saudáveis, escolhi acreditar que os outros também precisam de mim. Não digo que sou essencial à vida de ninguém. Nenhum de nós é. Mas, a partir do momento que ninguém é essencial, todos passamos a ser.
Somos uma coleção de cada interação humana (e animal, diga-se de passagem) que acontece durante nossa existência. Até mesmo a solidão é parte dessa experiência. Ela é o momento de troca consigo mesmo. A complexidade de cada ser humano vem exatamente da experiência humana. Boa ou ruim, somos nós os responsáveis por manter vivo o fluxo dessa experiência.
Relaxe, não precisa fechar essa aba (ou página, caso tenha escolhido imprimir esse texto), levantar-se, tomar uma ducha e sair correndo, clamando ser dono do mundo. Simplesmente continue o que está fazendo. Preferencialmente, ajuste seu comportamento para que sua contribuição seja positiva. Manter o fluxo vivo significa alimentar a experiência humana tanto quanto absorvê-la. Então, enquanto termino de escrever esse texto, inspirado por uma centena de figuras das mais diversas, que já contribuíram para o eterno canteiro de obras que sou eu, sugiro que preste atenção em quem cruzar seu caminho, seja por um par de minutos ou uma vida e continue sempre a ser um canteiro de obras. Melhor que inaugurar-se antes do tempo e causar uma tragédia. Nem sempre haverá uma onda forte a quem culpar.