Edifício Santa Cruz: a lança cravada no coração do Centro de Porto Alegre

O prédio mais alto de Porto Alegre é uma entidade. Uma relíquia. Um tesouro que preserva memórias e significados.

Vista do terraço do Edifício Santa Cruz

Por Eduardo Dorneles e Matheus Leandro

Nem todos o vêem. É difícil conceber isso já que sobre a cabeça de todos ele sempre paira. A pressa, talvez, impede as pessoas de perceber sua presença. Porém, ele a todos vê; ele a todos percebe. Nada escapa de sua imposição e magnitude. Consciente ou não, ele é parte da vida de milhares e milhares de pessoas todos os dias.

Quem é este alguém? Não é alguém. É uma coisa? Mais do que isso. É uma entidade. Uma relíquia. Uma jóia do infinito da antologia de filmes de super-heróis. Um tesouro que preserva memórias e significados.

É o Edifício Santa Cruz: o maior prédio de Porto Alegre.

Inaugurado em 1965 e cravado no coração do Centro Histórico da capital gaúcha, o edifício está localizado na Rua dos Andradas, 1234, bem pertinho da Praça da Alfândega. Com 107 metros de altura, o prédio conta com 31 andares. Até o 24º andar estão distribuídas salas comerciais, ocupadas pelas mais diversas empresas. Do 25º ao 31º andar estão os apartamentos. E no último andar reside aquela que possivelmente é a figura mais icônica do edifício.

Todos que circulam pela Praça da Alfândega a conhecem ou, ao menos, já a avistaram. Ela é uma senhora de 65 anos como muitas outras. Exceto por um detalhe: a paixão por seu casal de goldens retrievers, que até a pouco tempo a acompanhava fielmente — Moishe, o mais velho, era carregado por uma cadeira de rodas adaptada devido a sua dificuldade para se locomover.

Marília Levacov, professora universitária aposentada, é a moradora mais antiga do Edifício Santa Cruz. Sua família foi a primeira a se mudar para o local, há 52 anos.

“Guardo com muito carinho as memórias que vivi aqui, principalmente com meus pais. Minha vida está neste lugar”, se emociona Levacov.
Museu de Arte do Rio Grande do Sul visto do terraço do Edifício Santa Cruz

História. Tudo gira em torno disso nas dependências do edifício. Não apenas a história do local, mas de toda Porto Alegre. Muitas pessoas por ali transitam. São visitantes, consumidores e trabalhadores. Ubirajara Volpi, de 81 anos, é um exemplo que reúne todos esses aspectos.

Na foto, a Catedral Madre de Deus, o Centro Administrativo do RS e, ao fundo, o Estádio Beira-Rio

Síndico profissional do edifício, Volpi não reside no local, mas o frequenta há 26 anos.

“Trabalhava no Banco Agrícola Mercantil quando me chamaram para atuar aqui. Disse sim na hora! Hoje tenho uma coleção de grandes memórias”, lembra Volpi.

Outro nome que não mora no prédio, mas tem uma intrínseca história afetiva com o local é Hilário Rodrigues, proprietário do Café Hilário, localizado no corredor de entrada do edifício. No local há 17 anos, Rodrigues celebra a beleza que é trabalhar no Centro da capital e o contato com o público.

“A relação que eu tenho com os moradores é o mais impressionante. Parecemos uma família”, explica.

Histórias que se cruzam pelos corredores do histórico edifício. Construção esta que se cruza com a vida que pulsa do Centro de Porto Alegre.

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