A tela secreta

Ele sempre preferia escrever seus textos enquanto estava sozinho, não importasse a hora do dia ou da noite na qual se dispunha a escrever. O problema, na verdade, nem era escrever propriamente qualquer coisa, mas sim, quando ele resolvia escrever algo que realmente sentia naquele momento e que precisava sair dele de alguma maneira: através de palavras.

O problema maior de todos era quando, inesperadamente, alguém aparecia por trás de alguma maneira.

Um simples passo.

Absolutamente qualquer barulho, rangido ou som…

…era capaz de fazê-lo perder a concentração e se sentir invadido de alguma maneira, como se fosse pego pelado no quarto fazendo algo de muito errado. Não completamente muito errado, mas errado o suficiente para que ele se sentisse envergonhado de alguma maneira. (Ok, mas sejamos honestos, ninguém nunca gosta de ser pego pelado fazendo algo. E nem ele de ser pego escrevendo algo).

Ao menor sinal de aproximação, seja através de passos ou de uma voz que ia ficando cada vez mais intensa, ele preferia trocar a tela do computador para outra e fingir desinteresse ou interesse por um assunto minimamente interessante. Pelo menos naquele momento, no qual escrever sobre outra coisa era tudo o que importava. Muitas as vezes foram as que ele deu um salto na cadeira e foi repreendido de alguma maneira que o denunciavam mais do que qualquer coisa. (Talvez ele até preferisse ser pego pelado.)

De onde ele escrevia, havia uma janela que, com a ajuda da luz do quarto, ajudava a refletir o que se passava no corredor por trás da tela secreta, onde ninguém, pelo menos durante a escrita, poderia saber o que estava se passando. O mínimo movimento de um lado para o outro já trazia um alerta sob a sua cabeça: parar de escrever imediatamente e ver o que estava acontecendo.

Diferentemente do que aconteceria num filme de terror, por exemplo, muitas vezes ele preferia não checar o que era. Ele sabia exatamente do que se tratava. E quando checava, primeiro desistia de escrever e levantava da cadeira.

Mas o que ele escrevia de tão importante assim? Por que ninguém poderia ver?

Ironicamente, após escrito, o texto poderia ser visualizado por muitas pessoas, as quais talvez não se importassem minimamente com o que ele escrevia ou pensava. Importante é lembrar que: elas só viam o bebê depois de pronto, nunca quando ainda estava sendo trazido à luz.

Particularmente, o som de seus dedos ao teclado acabava tendo um efeito terapêutico para ele que poderia significar muitas coisas: desde a prática de um hábito antigo até a forma de escapar, por alguns instantes que sejam, de uma gama de momentos vividos para aquele lugar onde tudo o que acontecia estava diante dos olhos acontecia calmamente, uma palavra por vez. Longe de tudo o que era mais rápido.

Longe de tudo o que acontecia ao seu redor, na tela secreta seus sonhos se realizavam. Não só os dele, mas o de muitas pessoas que estavam em suas histórias, que viviam e partilhavam momentos criados por ele e que, num piscar de olhos, tornar-se-iam herois ou vilãs. Bastava a ele dizer as palavras. Ou melhor, escrevê-las. E jamais, nunca, ninguém poderia lê-lo até que o conto chegasse ao seu final completo.

Seria injusto.

Injusto como começar uma música e parar pela metade.

Como comer um prato e sem comê-lo por completo.

Ou, simplesmente, ler uma história sem que

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