Figuras no teto

Sol no vidro. Reflexo do vidro no rosto. Rosto esse que dormia até então e foi acordado de maneira sutil, porém natural. Sem sons, sem nada que o perturbasse de alguma maneira. Simplesmente despertou.

Abriu os olhos.

No teto, notou figuras estranhas feitas de luz, moldadas pelas aberturas da janela em formatos geométricos que formavam conjuntos luminosos interessantes e incompreensíveis naquilo que ele enxergava.

Soube desde então que o dia não seria nublado ou descontente como todos os outros que vivera na semana anterior — e que o desanimaram completamente. A chuva repetitiva, os pingos constantes e inconstantes, o frio absolutamente insuportável marcavam dias em que ficar em casa deitado na cama ou no sofá, só esperando dias melhores, faziam todo o sentido no mundo.

A verdade é que ele nunca soubera como lidar com esses dias que apareciam sem pudor nem aviso prévio na sua vida. Essa é uma resposta que ele procurava há anos. Já ouvira algumas vezes o como “um dia feio não pode definir o seu humor desse jeito!”, “você é muito afetado pelo tempo”, “não pode ser assim”. Podendo ou não ser de qualquer jeito, o fato é que era. E que ele não gostava desses dias feios.

É impossível não atrelar coisas boas a dias bonitos e coisas ruins a dias feios. Até o dia da revolução. Um acontecimento que deixou-o tão triste que ele desejava, por tudo o que fosse, um dia feio. Infelizmente pra ele, neste dia o sol brilhava forte como nunca num céu azul e sem nuvens: ironia do destino.

Hoje assim o dia começava. Ele, sem preocupações na cabeça e o céu sem nenhuma nuvem aparente que pudesse cobrir qualquer pedaço que fosse do brilho que o sol trazia.

Removeu o edredon de cima de si. Fazia calor. As figuras dançavam acima de sua cabeça. O dia já havia começado para a maioria das pessoas, provavelmente. Ele ouvia sons de carro, de serralheria, conversas e assovios e ficou ansioso para tentar descobrir o que aquele dia o traria.

Ficou tão animado que caiu no sono novamente, desfrutando as férias. Sem preocupações nem necessidade de fazer algo imediatamente, podia dar-lhe alguns instantes a mais de descanso — e ninguém o culpava por isso.

Acordou algumas horas depois, novamente. As figuras no teto dançavam em novas posições, sinal de que o sol havia se movido um pouco mais — mas ainda estava lá. Ele sorriu, prestes a se levantar da cama. Planejou os afazeres do dia em sua cabeça, mas nada que fosse assim de tão importante que não pudesse esperar um outro dia.

“Mas vamos aproveitar esse incrível dia de sol para fazer tudo, né?

Ele sabia que a menor tarefa e a mais fácil de todas jamais seriam feitas em outra ocasião que não um dia repleto de sol. O que ele não notou, logo de cara, foi a intensidade das figuras no teto acima dele, que agora era fraca e elas mal apareciam.

Sua dúvida começou: seria uma nuvem num céu outrora perfeito? Apenas uma nuvem não estragaria o restante do dia — faltavam elementos como o frio e a chuva incessante para que o dia feio estivesse caracterizado por completo.

Tomou coragem, respirou fundo. Precisava saber urgentemente o que estava acontecendo.

Quando abriu a janela, enfim, uma supresa non grata.

Aparentemente ele havia dormido demais, o sol já se punha e ele havia perdido um dia incrível de sol.

As figuras no teto, formadas agora pela sombra de uma árvore pelo poste do outro lado da rua agora pareciam debochar de sua cara.