O Imortal [Contos comuns]
Por Matheus Silva
Vinha andando como sempre pela Rua Greenvalle, assim como normalmente fazia todas as sextas e feriados. As pedras da rua estavam molhadas por causa dos chuviscos recorrentes da cidade, o clima sempre era frio. A luz fraca dos postes e que escapavam pelas frestas das casas revelavam as mais curiosas criaturas, silhuetas alimentavam o imaginário. Sobretudo escuro, mãos escondidas nos bolsos. Ele não se importava de molhar os seus cabelos, era confortável sentir as gotas de chuva no rosto.
- O dono da barraquinha de flores sempre fecha a essa hora da noite, pensou Josh.
Eles sempre se cumprimentavam quando se viam, sempre, a mais de 50 anos. Ele não aparentava ter essa idade, mas já tinha muito mais do que isso. Ao fim da rua a luz que saia pela velha vidraça da janela e as risadas altas, revelava de forma sutil a natureza do local. O cheiro de álcool era característico como de uma taberna em um conto medieval. Josh já havia vindo aqui milhares de vezes, mas sempre sentia um frio em sua barriga como a de uma adolescente que vai encher a cara pela primeira vez. Ao entrar no estabelecimento a cortina de fumaça pairava sobre o ar pesado, mas reconfortante. Homens e mulheres riam, bebiam, choravam pelas magoas. A guerra era o assunto que aquelas paredes mais ouviam no momento e a esperança do retorno ao lar era percebível, ela estava quase que no fim. Josh já havia participado de algumas em sua vida, derrotas e vitórias de uma trilha sem fim. Ao se aproximar do balcão ele sempre erguia a cabeça para ver as fotos das paredes, estando retratado na maioria deles, já que era amigo do dono original do boteco, o avô do atual. Todos daquelas fotos já haviam partido…menos Josh.
- Josh, garoto! Exclamou o dono do bar, Sr.Alfred. Ele era um dos poucos ainda vivos que conhecia a história do “garoto” que agora tinha aparência física de uns vinte e tantos anos, mas um olhar de no mínimo uns cinquenta.
Josh sentou calmamente no seu canto favorito apoiando os cotovelos na linda madeira de carvalho escuro do balcão, que era uma das coisas tão antigas quanto ele naquele local, e falou em um tom sombrio:
- Alfred. Chegou a hora.
O dono do bar que sempre sorria para todos ali, naquele momento sentiu um forte aperto no peito, ele sabia da seriedade do garoto imortal, sabia de sua luta todos esses anos, ele simplesmente não acreditou no momento, mas graças ao olhar sério de Josh o senhor se convenceu.
-Como? O velho indagou com um tom de certeza.
Antes que Alfred iniciasse qualquer frase, Josh o cortou falando:
- Eu descobri uma forma, depois de tanto tempo, agora sei como. Falava com um sorriso de canto de boca, esse era um desejo de muitos anos.
Josh, um mortal que um dia descobriu como nunca mais morrer. Desfrutou desse dom, aproveitou sua vida ao máximo, até ver que somente ele avançou, ver que outros descansaram, ficaram para trás, se deleitaram nos braços do fim. Teve dezenas, se não milhares de amores. Viu amigos nascerem e morrerem, virando amigo dos filhos dos amigos. Tentou a guerra como válvula de escape algumas vezes. Virou chauvinista por uma pátria melhor, em vão. Condecorado em todas elas por sobreviver até o fim, derramou sangue em todos os campos. Vagou por vezes como indigente, tentando descobrir o sentido de uma vida infinita, ignorou por vezes ajuda. Atormentado pelos pesadelos de sua longa vida um dia ele obteve resposta. Andou pela Rua Greenvalle como normalmente fazia todas as sextas e feriados. As pedras da rua estavam molhadas por causa dos chuviscos recorrentes da cidade, o clima sempre era frio. Mudou-se justamente por gostar do clima deserto da rua nas noites frias. A luz fraca dos postes e que escapavam pelas frestas das casas revelavam as mais curiosas criaturas, silhuetas alimentavam o imaginário. Sobretudo escuro, mãos escondidas nos bolsos. Ele não se importava de molhar os seus cabelos, era confortável sentir as gotas de chuva no rosto como fez quase sempre durante sua longa jornada. Pediu aquela garrafa de vinho ao seu amigo, que o acompanhou dessa vez, coisa que não fazia com frequência. Levantou-se, agradeceu ao companheiro, olhou novamente as fotos na parede, se envenenou mais uma vez com o ar esfumaçado.
Adeus Alfred.

