180 terças-feiras depois

Foto: Alex Iby / Unsplash.

Essa é a primeira terça-feira entre 180 terças-feiras em que acordo sem ter um texto pronto para publicar no LinkedIn. E não foi por falta de tempo no dia anterior. 180 terças-feiras depois talvez eu tenha esgotado minhas analogias, aquelas que misturam algo da cultura pop com qualquer coisa dentro do universo do empreendedorismo, ou então as famosas listas para você fazer qualquer coisa.

Transformar um hobby em trabalho pode desfigurar quem você é por natureza. Quando comecei a mostrar meus escritos para o mundo, cinco anos atrás, a ideia era me tornar um romancista — e escrever crônicas para pagar os boletos, como tantos romancistas brasileiros se veem obrigados a fazer. Cinco anos depois eu tenho 0 romances e 179 artigos de 1000 palavras publicados no meu perfil do LinkedIn onde tento, terça após terça, repetir a fórmula que me fez conhecido nessa rede profissional.

Tenho feito isso, na maioria das vezes com sucesso, porque são esses textos que pagam os meus boletos. São as minhas crônicas — ainda que profissionais e com 0% de teor literário. O papo aqui é extremamente comercial. É trabalho. E aí o leitor talvez agora esteja se perguntando se o LinkedIn me paga por esses textos. E aí eu respondo ao leitor que seria ingenuidade pensar assim. Os 179 artigos são parte de uma estratégia de marketing de conteúdo que vende meus serviços como redator freelancer, um ou outro publi e meu curso online. Uma espécie de cartão de visitas 2.0 que me dá credibilidade para, por exemplo, escrever para um cliente um artigo de 1000 palavras sobre uma estação de tratamento de esgoto sanitário ou apresentar um lançamento do Google.

É como se, aos poucos, eu tivesse me tornado um prostituto literário. Você me paga. Eu escrevo. No final do dia sinto meus dedos imundos, sujos como quando você troca o pneu do seu carro, enquanto minha conta bancária vai ficando um pouquinho mais gorda.

O que equilibra a balança é saber que muito do que escrevo no LinkedIn ou no be freela acaba ajudando muita gente. As mensagens que recebo cada vez que um texto vai ao ar fazem toda essa prostituição valer a pena. Comparados os ofícios, essa é a parte onde sinto prazer.

Mas, nem tudo são cifras. Tem também um tal de ego. O escritor que diz que não liga para as opiniões sobre o seu trabalho mente. Mente para si mesmo. Mente para o leitor. Eu ligo. Até o Paulo Coelho liga.

Ligo tanto que nos últimos tempos não tenho sido eu. Me desfigurei em meio a clichês por vezes baratos. Aprendi a jogar para a galera. Escrever o que as pessoas querem ler. Quando a pré-visualização de uma notificação me mostra que o comentário do leitor começa com “discordo totalmente” minha barriga dói, minhas mãos suam e meu coração bate mais forte.

E se alguém concordar com o comentário do fulano? E se isso se tornar uma discussão ainda maior? E se começarem a pipocar indiretas para mim em outros perfis?

Terça-feira atrás de terça-feira tenho clicado em notificações esperando pelo pior. Por mais que eu mostre o contrário em meus discursos. Lembro de desperdiçar algumas horas de uma tarde numa praia paradisíaca da Tailândia enquanto acompanhava pelo LinkedIn uma discussão que me citava indiretamente. Que tipo de cronista é esse que desperdiça vivências únicas para acompanhar uma treta de rede social?

Estou participando da oficina de escrita criativa do João Paulo Cuenca. Na opinião deste que vos escreve, João, ou J.P., é um dos maiores cronistas brasileiros contemporâneos. Numa das aulas, João, ou J.P., nos fala sobre os cronistas de sofá. Os escritores que utilizam de seus espaços em jornais para, vez ou outra, colocarem para fora seus demônios. Indiretas, rancores ou preferências políticas tomam o lugar da crônica, o gênero tradicionalmente brasileiro que vai se perdendo em meio a um emaranhado de opinadores profissionais.

Para João, ou J.P., o cronista precisa ir para a rua. Sentar num bar qualquer, escutar o que falam na mesa ao lado, puxar assunto com um desconhecido na rua ou mesmo gravar conversas alheias no ponto de ônibus. A crônica é o registro único de um evento muitas vezes banal, como quando Antônio Prata escreveu sobre o seu chuveiro.

Eu fiz isso na última semana. Escrevi algumas linhas que podem ser categorizadas como autoficção — alguma semelhança com o “storytelling de LinkedIn”? — e publiquei no Medium. Foi o texto que mais me deu prazer em escrever nos últimos anos. Também foi aquele menos lido por quem acompanha meu trabalho. Porém, me reconheci enquanto escrevia aquelas cenas. Senti novamente a velha vontade de escrever um romance. Escrever por escrever, não apenas por ego ou likes.

Era isso que eu deveria estar fazendo com as minhas segundas, terças ou sextas-feiras. Buscar no cotidiano a inspiração para contar minhas histórias. Não no que dá mais likes, no que gera mais polêmica ou no que vai me fazer vender meus serviços.

180 terças-feiras depois, ainda que os likes digam o contrário, percebo que devo tirar minha bunda do sofá e escrever mais textos como aquele do rabo de galo numa tarde fria de agosto e menos listas para você fazer qualquer coisa.