Abertura pra seguir

Matheus Armando
Nov 5 · 2 min read

Meu, cê sabia que eu questionei meu peito várias vezes por ti? Tipo… não sei explicar. E cada dia que passa eu percebo que tá tudo bem não saber explicar. Desde que eu escovei meus dentes no banheiro da vó e percebi que a vida não tinha sentido eu busquei uma razão pra viver.

Essa razão, por mais tola que fosse, eu buscava num punhado de masculinidade. Isso corta minha garganta até hoje. Cê não faz ideia da vontade de falar com minha voz que eu tenho. Cê não faz ideia da voz que eu tenho e de quem eu sou. Porque a masculinidade promete um pote de ouro pra quem for mais bruto. Consigo, com os outros e com tudo o que for diferente.

E eu sempre fui diferente. Especial? Porra, lógico que não. Todo mundo é diferente. Mas a questão é: eu nunca consegui aceitar minha diferença. Aceitar que minha voz não é o que eu quero, minha barriga não é como disseram e meu pau não é grande igual a aquele filme da TV. Flagrar que não tem problema nenhum em não saber o que fazer dos próximos anos.

Foram alguns anos de extremismo pra entrar na faculdade e admitir pra mim mesmo que eu não queria tá lá. Todos os dias, um punhado de risadas e bem-estar me atraíam mais que saber a tendência da próxima propaganda. A minh’alma que fervia por música, pintura e teatro nunca conseguiu se congelar à “criatividade” da propaganda.

Era tudo eu tentando dar sentido ao vazio. Projetar um futuro “racional” fazia parte disso. Incluía coisas como saber exatamente pra onde ir, com quem ir, como ir… a vida e você, M, me ensinaram que não. Que a gente não tem nenhum controle sobre os nossos sentimentos. E perceber que estar com você era muito mais valioso que as metas que eu projetava me fez me sentir mal. Afinal, eu já tinha dado a certeza verbal de que a gente não era nada.

Não tô pleiando a vítima, só compartilhando minha visão. Eu já falei demais. Vivi pouco, mas já disse muita coisa. Meus verbos não se conjugam com meus atos e eu sei que não dá pra voltar atrás. Eu tô me sentindo ilhado emocionalmente. Preciso voltar à costa nadando, sem depender dos barcos, caiaques ou âncoras de outras pessoas.

A vida não tem motivo pra me ter aqui. Eu sei que projetei em você uma segurança enquanto buscava outra segurança, porque a porra do Matheus de 9 anos, egoísta, chato e barulhento só queria uma razão pra viver. Eu vendi muito do que sou pra soar mais homem. E eu percebi que essa é a pior decisão que eu tomei na minha vida. Falando nisso, eu sempre quis usar saia. Ficaria D A O R A em mim, vai dizê.

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    Eu perco a linha