Cotidiano
Manoel é um moleque esperto e feliz
Com uma bola no pé faz poesia que até Garrincha aplaudiria
Cada passe é uma estrofe, cada drible é um rima
Na escola ou com o pé no asfalto faz a sua poesia
O futebol é uma tela e a bola é o seu pincel
Quando o menino joga bola se sente como ao céu
Ele dança. É lindo, é liso. Ser jogador é o seu sonho de menino.
Um sonho tão bonito mas guardado na gaveta do destino
O seu pai, escritor do seu futuro, precisa de um pupilo
E a arte de Maneco vai saindo do tom
A idade chegando, foi esquecendo o seu dom
Por uma ideia banal e errada
Trocou sua pelota por um terno e gravata
Do lado dele sua vizinha Beatriz
Sonha em ser atriz, é o que a faz feliz
Mas escuta sua mãe, segue seu conselho:
“Minha filha, Beatriz, ser atriz não dá dinheiro”
Me segue, me escuta, que eu já sou adulta
Faça faculdade, estude, se forme
Transforme-se
Transforme seu futuro em crachá e uniforme
Entenda sua mãe, que eu já sou vivida
Carteira assinada é o que te faz alguém na vida.
Ainda me lembro do meu tempo de garoto.
Eu conheci um moleque talentoso, moleque artista
Desses que desenha durante todo o dia
O menino inventava
Viajava e acreditava no que ele fazia
Ele brincava com o lápis na mão
Tinha visão.
Mas grafou o seu sonho com um pouco de ilusão
Agradou a sua família e se curvou à sua vontade
Largou sua arte, abdicou de sua liberdade
E apagou o caminho desenhado
Por um destino embrulhado
Renata era uma menina com tantos planos
Fazia maravilhas com seu piano
Talento doce e profundo em cada dedo
Sonhava com a música, mas tinha medo
“Música hoje em dia não dá dinheiro”
“Você precisa ser advogada ou engenheira”
Seguiu uma carreira e esqueceu
Dou seu sonho de menina que com ela já morreu.
Cenas do cotidiano, eu to cansado de ver tanto sonho trocado por uns trocados.
