Culpa
Luz, câmera, ação.
Ao estalo da claquete a cena se repete
É uma senhora. Uma senhora indignada com a notícia na manchete
Agourando o futuro de um moleque
Pra que pague com responsa o assine o cheque
O cheque de culpa. Culpa sua.
Foi ele quem escolheu a rua
A ambição que se propagou à luz da lua
Foi vontade sincera. A verdade nua e crua.
Foi culpa sua, ele tinha opção
As portas estavam abertas e ele escolheu o porão
Foi o que ela escutou na televisão
Ela, que sabe tão pouco, mas sabe que a culpa é sempre do outro.
Luz, câmera, ação.
Guerra fria, guerra santa, guerra mundial
Corpos caem, cedem, bala e sangue chovem no quintal
O sistema falhou, o padrão tremeu
A força da responsabilidade cai sobre os ombros dos gigantes
Não você, não eu
A culpa é das mãos que ordenham esse montante
A culpa é dos fortes e os fracos são oprimidos
Seus braços são amarrados e calados os seus gritos
As mãos de ferro fardado ferem
Ferem e ferram os menores
São mãos fétidas, corruptas, que freiam a liberdade
É o resumo desse longa-metragem
Em que a culpa do terceiro é a única verdade
Luz, câmera, ação
Eu sou inocente, isento de responsabilidade
Vítima de qualquer fatalidade
Exposto à monstruosidade do outro
Eu sou tão pouco
Sou coadjuvante dessa situação
Sou a constante dessa equação
Eu permaneço imóvel nessa apresentação
Eu sou protagonista da minha história
E na história do universo
Eu nunca sou o vilão.
