Eu arrumei a casa
Tive fora por um tempo durante as últimas estações. Não me pergunte quanto, pulemos essa estrofe que eu já cansei de recitar. Se não ouviu, não ouvirá, porque já não faço poesia das minhas lágrimas ou risos; de tudo faço história a fim de explicar a minha.
É, eu estive fora por um bom tempo.
Eu sempre achei que fosse fora da casinha. Por achar que não tinha um teto, nunca me preocupei com quem ali parou pra uma xícara de café ou simplesmente um aceno. Consequentemente, tenho sido hostil com minhas visitas. Muitas delas íntimas, no presídio que eu construí no em meu peito de barba e masculinidade. E, claro, uma pitada de orgulho.
A última inquilina ainda está devendo parcelas de culpa e demorei pra limpar o nome e a alma. Agora corro risco de perder hóspedes por inadimplência. E não foi culpa minha não, só que, com as dívidas deixadas e a casa bagunçada, precisei eu mesmo arrumar tudo.
Comecei devagar, pelas almofadas no chão. Almofada sempre me lembrou amizade. É uma palavra tão inocente.
Diferente de travesseiro. Travesseiro é sentimento. É onde a mão agarra no calor do sexo, é onde a lágrima bate quando não tem mais mão e nem calor.
Almofada só esquenta quando queremos diversão ou quando queremos substituir o travesseiro. Ela deixou meus travesseiros, almofadas e auto estima no chão.
Demorei pra achar a pazinha que coubesse os caquinhos de mim, mas achei. Eu arrumei a casa.
Só que, nesse processo, eu notei que a casa era de madeira. Ai, pai! Os cupim tão comendo tudo e aos poucos minha casinha tá indo pro beleléu. Já não sentia vontade de consertá-la nem consertar-me.
Tive que sair. Espairecer. Reencontrar um jeito de decorar a casa. Talvez cortinas novas, em cachos? Hmm, não sei… vamos tentar pelo piso. Ou melhor, a pintura! Isso, a pintura. Sempre quis que fosse colorida e deixei preto e branco porque “tava na hora de virar homem”. Vamos pôr um pouquinho de cor aqui e… isso mesmo. Olhar pra casa de fora foi bom porque consegui ver como meus vizinhos enxergavam a bagunça toda. E era grande.
Eu arrumei a casa.
Dois pregos aqui, uma lágrima acolá e nivelei meu coração de tijolo.
Eu consertei a casa.
Só sobraram duas coisas intactas: Os móveis que combinamos de escrever e a Janela que escrevemos aquela noite.
A casa tá arrumada, só que agora tá vazia.
Eu não sei mais o que pensar
só sei que
preciso descasar
dessa casa.
