Perdi a Cabeça
Ai, minha memória. Dói. Meu pai era a única pessoa do mundo a quem eu conseguia notificar mais uma das minhas perdas sem receio. Hoje é fato. Pelo menos uma vez por semana eu vou perder alguma coisa. Quase sempre de valor. Celular, dinheiro, aquela chance… E dói. Dói porque as pessoas acham que a gente funciona como elas e acreditam que é só se organizar que isso não acontece. Vem da velha coisa da gente achar que todo mundo funciona como a gente. Dói porque quando eu sentava na carteira triangular colorida do Derosso as professoras brigavam comigo porque eu não conseguia deixá-la arrumada. Derrubava lápis e só não acontecia o mesmo com a cabeça porque tava grudada. Só que agora eu perdi a cabeça. Perdi meu celular. Não tenho o que dizer nem fazer. O desespero toma conta porque, infelizmente, a gente vive com essa bosta. Eu to ansioso. Tá doendo, porque cada centavo que eu perco por não conseguir me organizar e não conseguir me concentrar faz eu me sentir um lixo. E quando ouço risadas e broncas disso, bate uma saudade do meu pai. A única pessoa no mundo que entendeu que nunca foi falta de atenção. Eu simplesmente funciono assim. Talvez sequer funcione.
