O bom almoço

Saio para almoçar em um raro sábado solitário onde há um pouco mais tempo para pensar. A amplitude de opções do que posso comer é grande e assusta. Penso que em outros tempos não era assim, penso em como a civilização mudou e me questiono se é o fim de uma era. Interiormente cambaleio entre a esperança e a indignação. Me vejo preso em algumas abstrações a respeito da civilização, dos costumes e da religião e me sinto patético. Decido onde ir.
O bairro é burguês e vejo pessoas bem vestidas sentadas em restaurantes. Acho isso bom. Vejo mendigos em volta esfarrapados com expressão nenhuma no rosto. Luto interiormente para não me submeter a uma análise jacobina da situação. Existem inúmeras razões para a pobreza e para a riqueza, cada sofre as consequências de suas escolhas, as tragédias existem, etc, etc, etc. Explico para mim mesmo os motivos da existência da pobreza, mas a explicação não trás nenhum conforto e ela mesma é preenchida de mais abstrações. Encontro o restaurante.
O local tem um conceito estético bem delineado. É um desses restaurantes que procuram fazer comida rústica de bar, porém com um toque moderno e grã-fino. Esse tipo de conceito que agrada a classe média alta permitindo com que ela viva um pouco da experiência do pobre sem os riscos da pobreza. Por isso o preço não é nem muito caro e nem muito barato. Cedo ao espírito burguês e peço minha comida. Sento-me para esperar o prato e finalmente meu pensamento desacelera. Aceito o momento e isso é tudo que tenho.
Nesse momento sentam-se ao meu lado duas senhoras. Pela roupa mais humilde noto que não são do bairro. Uma está na faixa dos cinquenta anos de idade e a outra provavelmente se aproxima dos oitenta. Não são mãe e filha, pela conversa inicial penso que a mais velha é tia da mais nova. Noto que a mais velha não tem um braço e parece um pouco convalida. Ela usa uma blusa com a manga dobrada para dentro no lado onde tem sua deficiência. A mais nova pede uma comida e a atendente oferece um desses aparelhos que vibram quando seu prato fica pronto. A sobrinha comenta que nunca tinha visto aquilo e percebo pela conversa que elas não costumam sair para comer em lugares assim e que, portanto, aquele momento é algum tipo de folga ou celebração das duas. A novidade da experiência para as duas atribui àquela conversa algum tipo de singeleza e simplicidade encantadora. Por isso fico mais atento. Elas não conversam sobre a civilização, sobre política e nem religião. Não acho isso nem bom nem ruim, apenas escuto sem fazer julgamentos morais. A mais nova fala sobre a diabetes da mãe e sobre como ela precisa cuidar da sua alimentação. Minha comida chega e continuo ouvindo-as.
O aparelho delas vibra e a sobrinha se levanta para pegar a comida. Ela trás os dois pratos e senta-se para comer. Súbito ela nota que se esquecera de fazer uma coisa. Ela faz uma pequena expressão de vogal com a boca e levanta-se para cortar as comidas do prato da sua tia. Por não ter um dos braços, a mais velha não consegue manejar os dois talheres. Ela corta vagarosa e atenciosamente cada um dos vegetais e da carne que estão no prato. A conversa delas não cessa enquanto essa ação transcorre, o que sinaliza uma certa naturalidade das duas quanto aquela situação atípica. Estamos em um restaurante burguês e esse pequeno gesto de caridade desconcerta o ambiente, tornando-o mais estranho e mais natural ao mesmo tempo. Elas seguem sua conversa comentando cada uma sobre o próprio prato e logo depois sobre receitas que gostam de fazer.
Lembro-me dos pensamentos que me assolaram no caminho para o restaurante. Das intuições que tive a partir dos livros que li e das aulas que fiz, nenhuma delas jamais se levantou para cortar a comida de uma pessoa com deficiência. Quantas abstrações valem um ato de caridade? Nenhuma. Nem por isso desprezo o estudo, a filosofia e a teologia. Tudo isso é muito nobre, claro que é. Mas a falta de proporção e o desespero que brotam das abstrações sobre o mundo são tão patéticos. A civilização, a política, a religião são conceitos abstratos que precisam ser corretamente delineados e, mesmo quando delineados, são todos passivos de análise e questionamento. Portanto, importam menos que a bondade real e inquestionável da sobrinha de uma velhinha que se levanta para ajuda-la a comer em um dia especial para elas. Pode se argumentar que esses atos de bondade hoje em dia são mais raros do que antigamente quando as pessoas eram mais tradicionais e nobres. Pode se argumentar que haverá um dia no futuro onde esse tipo de situação será raríssima devido aos avanços da ciência e da sociedade. Pelas tradições do passado ou pelo progressismo do futuro, a senhora mais nova fez algo raro e incomum. Porém, nem a tradição, nem o progresso são capazes de levantar da cadeira e cortar berinjelas.
Penso no que Jesus disse. Penso no que Jesus fez. Suas palavras tocam nosso coração. Seu sacrifício na Cruz salva nossa alma.
“Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.” I Coríntios, 13
