[urbanos #1] — Augusta, Angélica, Consolação

Nada de pernas, nem bundas. As maçãs do rosto são o que importa.

Aquelas eram as maçãs de rosto mais bonitas que Sebastian já vira. Definitivamente. Lembrou do que o seu avô lhe dissera sobre reconhecer o amor da vida. “Não é a bunda nem as pernas, as maçãs do rosto, são elas que dão coragem ‘pra gente’ ir lá e falar na cara, abrir o jogo. Se você olha pra elas e sabe que são suas, você vai lá e pronto”. Aquelas eram as maçãs do Sebastian, ele podia sentir.

Era de manhã. E era São Paulo. Era metrô lotado. Ele embarcou na estação Santa Cruz, ela já estava lá. Sebastian usava terno e gravata — não gostava, vestia. As maçãs estavam acompanhadas de headphones e vestia roupas despojadas. Uma camiseta com estampa do Almodóvar, mochila nas costas. Lia “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros”. Sebastian não tirou os olhos das maçãs. As maçãs não tiraram os olhos do livro.

Sebastian se curvava, desviava para poder vê-las entre a multidão. Não estava longe, mas as maçãs estavam sentadas. Uma sorte. Talvez tivesse embarcado na primeira estação. “São elas, são as minhas maçãs”, pensava Sebastian. Riu, sentiu aquele frio na barriga e uma vontade pulsante de se aproximar. Talvez tirar o Leminski da mochila, — se tivesse espaço — e ler bem na frente das maçãs, já que elas gostavam de poesia. Pediu licença, deu um passo. Sua mochila prendeu em alguém. “Foi mal, desculpa”. Algumas pessoas começaram a se movimentar: “Próxima estação: Ana Rosa, integração com a linha dois do metrô”. Era a estação do Sebastian. Abandonaria as maçãs. Não. Elas se levantaram. “Ótimo”. O trem parou. Sebastian se segurou e, com a freada brusca, deu um giro. “Desculpa”.

As portas se abriram, as maçãs correram por uma porta diferente da de Sebastian. Ele esperava os passageiros se movimentarem, olhava por cima, acompanhava-as com o olhar e torcia para não perdê-las de vista. “O senhor não vai desembarcar?! Putz, licença”. Enfim, saiu. Correu. Elas subiam a escada rolante. Ele apressou o passo. Esperava que a esquerda estivesse livre, mas alguém, mais acima, estava bloqueando tudo. A escada subia devagar. Lenta como nunca. Perdera as maçãs.

Sebastian embarcou na linha dois. Ao chegar na estação Brigadeiro, algumas pessoas desembarcaram. Ele, então, viu as maçãs. Mais uma vez estavam sentadas. Sortuda. Agora ele poderia… “Can you speak english?”. Duas garotas estavam a sua frente. Ele podia “speak english”, só não queria. Também não queria ser grosseiro. “Yes”. Perguntaram onde precisavam descer para chegar à Rua Augusta. Ele respondeu sem deixar de olhar as maçãs. “Thank you”. Estava livre. Olhou e viu uma cadeira milagrosamente vaga perto das maçãs. Era a chance. Sentou. O fone na cabeça das maçãs estava alto, ele podia ouvir. Era Tom Zé. “Gosta de tom Zé”. Quando estava para iniciar a conversa, um senhor apareceu. Era hora de ceder o lugar. Sebastian levantou, sorria educadamente, no fundo, contrariado. “Obrigado, jovem”. As maçãs sorriram para Sebastian, parecia apreciar o gesto e, ao mesmo tempo, ser grata por não ter que levantar. Sebastian sorriu de volta. Ele olhou o livro, as maçãs liam Ferreira Gullar. Ele ia dizer: “O melhor desse livro é o…”. O celular tocou. Sebastian não queria atender, mas era do trabalho. E quando ligavam era importante, tanto que o contato estava salvo como “ATENDA”. Atendeu. “Seba? Me encontra na Angélica, ‘vamo’ ter que encontrar o cliente lá perto da Secretaria, não demora”. A resposta foi breve: “Beleza”. As maçãs se levantaram. Sebastian, num impulso que nem ele mesmo compreendeu, segurou os pulsos das maçãs. “Desculpa, foi mal, eu…”. As maçãs riram. Ele as deixou livres— não queria, teve que.

Elas eram lindas, eram as maçãs do Sebastian, com certeza. A ligação continuou: “Seba!? Tá aí? Vem logo, não demora que já ‘tô’ te esperando”. Era a Trianon-MASP. As maçãs se foram. Sebastian queria segui-las, mas tinha que partir. Próxima estação: Consolação.