[diários alheios #4] — Aquela tarde, aquela noite, tanto faz

Viajo no tempo até aquela tarde, com o cérebro — ou coração?

As tardes em Sampa podem ser inspiradoras. Ao passar pelas ruas da Vila, vejo as cores nos muros. As crianças saindo da escola, as mães sorrindo para eles. Há uma mulher que deixa uma livraria com uns livros nas mãos. Posso afirmar com quase certeza que são umas obras de autoajuda. Nunca o nome foi tão bem escolhido para denominar este tipo de livro: Autoajuda. Quem se ajuda mais é quem os escreve. Disso eu estou certo. Passo pela mulher com os livros e vejo um cachorro velho, parado, o olhar distante. Depois, ele se levanta com dificuldade, faz xixi mais adiante e volta para o interior do bar em que estava. Ele, assim como eu, só observa. A nossa diferença é que eu consigo contemplar aquilo. Não sei se animais conseguem pensar sobre o que veem. Talvez consigam, embora digam que não. E embora eu esteja com os olhos observando cada detalhe da rua, sentindo um cheiro de hambúrguer e passando por trabalhadores que se vestem como hipsters, o pensamento vai longe. Eu não consigo sair de outras tardes. Tardes que passaram. Também as tardes que poderiam vir e nunca virão. E então eu olho para um homem que está sentado em frente a uma borracharia. Ele olha cada perna e cada bunda que passa. Faz uma cara de tara e encara os amigos. Fazem comentários e riem. Eles se esquecem muito fácil. Talvez tenham suas mulheres em casa. Elas os esperam e eles nem se lembram dela. E eu volto para aquela tarde. Quase noite — já era noite. Lembro da ladeira e da chuva. Da multidão. Para os homens da borracharia aquela tarde (ou noite) não faria sentido, penso eu. Eles são do tipo que não perceberiam a diferença entre duas cervejas de tipos e sabores diferentes. Têm álcool, é o que importa, pensam. Nego-me a acreditar que eles estão certos. Volto para a tarde, parece que a minha vida parou nela. “Jurei mentiras e sigo sozinho”… E eu rejeito tudo que veio depois dela. Nego a negação. Metalinguagem. Ironias burlescas. E aí, em meio a todo o concreto paulistano eu vejo uma rosa. “Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”. Eu chego ao meu destino, sem perceber. Abro o portão. Sinto uma vibração no peito, não, não é a batida. É o celular. Eu sorrio com gosto e desbloqueio com ansiedade. Essas ansiedades inúteis e decepcionantes. Eu me lembro daquela tarde. Daquela noite. Rejeito tudo que você disse depois. Eu preciso dormir. Mas um sonho me leva de volta. “Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”.