“Guenta” firme

Eric acorda um tanto desesperado. Em meio a uma cama desforrada pelo seu sono conturbado procura desesperadamente por algo. Ele está ofegante e suado. Continua procurando pela cama. Sobre a borda da cama de casal tamanho Queen ele procura no chão. Há um lençol um pouco enrolado no chão. Um pato de porcelana está caído sobre ele. Ele pega o pato e o beija várias vezes. Dá um suspiro profundo.

“Cê não sabe o alívio que tô sentindo, sonhei com você todo quebrado. Desculpa por ter te derrubado, tá? Não vai acontecer de novo” — ele diz ao pato.

Eric dirige o olhar para um quadro que está na parede em frente a sua cama. No quadro branco, está escrito em vermelho: “ 27 dias sem drogas— faltam: 3 dias”. Há também o desenho de um cadeado aberto, um sol e algo que parece ser uma onda do mar. Ele se levanta, apaga o “27” e substitui por “28”, apaga o “3” e substitui por “2”.

“Quase lá, Duque, quase lá!” — diz ele dirigindo o olhar para o pato que está acolhido com todo cuidado em sua mão e parece observar o quadro empolgado — “Em breve, liberdade”.

Ele abre a porta de seu quarto. A casa está solitária como sempre esteve nos últimos 28 dias. Parece um pouco mais familiar do que no início de tudo, mas não é o seu lar. É uma casa grande, dois andares, com móveis em madeira ao estilo vitoriano, o chão em madeira. Tem um ar sombrio e intimidador. É possível ouvir os pássaros cantando — a vizinhança é silenciosa e discreta.

Ele agora está no banheiro. Se aproxima da louça sanitária, abaixa a cueca e faz xixi. O pato ainda está em suas mãos. Ele puxa descarga. Por um instante aquele barulho da água descendo pelo cano o lembra o mar.

“Cê não sabe a falta que eu sinto do mar. Você conhece o mar, Duque? Já viu o mar?” — ele pergunta ao pato, esperando uma resposta — “Hum… Acho que patos conhecem mais lagoas, né? Quando isso tudo acabar e a Leila voltar pra me pegar eu vou levar você. Acho que ninguém vai reparar que você não faz mais parte da decoração, não. Você merece. É sim, cara. Por ter me aturado esse tempo todo e me dado força pra continuar aqui sem enlouquecer nessa solidão escrota” — ele coça a cabeça do pato.

Eric coloca Duque sobre a pia e abre o armário do banheiro. Duque se desequilibra por estar em falso (“Ops”) e Eric o aproxima para um lugar mais seguro e bem apoiado. Eric coloca uma boa quantidade de creme dental e começa a escovar seus dentes. Com a boca cheia de espuma e a voz abafada ele continua conversando.

“Sabia que o creme dental não tinha esse frescor que tem hoje?” — ele diz olhando para o pato, que mantém a sua feição sorridente — “É… amigão. Colocaram esse frescor para as pessoas terem a sensação de limpeza e criarem o hábito de escovar os dentes. É um tipo de vício quase. Só que dos bons. Sente só” — ele escova o bico do pato — “Viu?”

Eric lava sua boca e a boca do pato. Enxuga com a toalha de rosto. Depois eles vão para a cozinha. Eric abre a despensa e pega um pacote de pão fatiado. Há apenas quatro fatias no pacote. Abre a geladeira. Nela, apenas uma garrafa de água, duas caixas de suco de pêssego, uma bandeja de queijo e uma de presunto. Ele pega as duas bandejas e coloca sobre a mesa. Em seguida, abre o congelador. Uma fumaça gelada cai (“Uhhh..”) duas lasanhas congeladas estão lá.

“Menu de hoje: lasanha! Não vou comer lasanha tão cedo quando sair daqui” — diz.

Abre o pacote de pão e as bandejas de queijo e presunto. Sentado, prepara um sanduíche. Puxa Duque para perto e começa a comer. Enquanto ele come, o pato está em uma posição que parece o observar, pedindo comida. Eric para de mastigar por um instante.

“Hum? Você quer? — ele pega uma pequena migalha do pão e coloca na boca do pato, mas ela cai. “Eu sei, não é dos melhores, mas é o que tem”.

É possível ouvir os ponteiros de um relógio analógico que está na parede da cozinha. Eric dá uma longa olhada para ele. São 8:23 da manhã.

“Em pensar que pensei que ia enlouquecer no décimo quinto dia. A Leila disse que eu só precisava ficar em um lugar tranquilo e me afastar de certas pessoas, tirar um tempo pra ficar e se autoconhecer, papo de hippie. Mas eu só precisava de alguém pra me ouvir e ainda bem que eu encontrei você, né? Você foi um bom amigo, Duque, talvez eu não tenha sido um dos melhores, mas fiz o que pude”.

Eric pode jurar que aquele sorriso fixo no bico do pato é uma reação e que, às vezes, ele muda bem discretamente. Depois de comer o pão, enche uma caneca com suco de pêssego e vai para a sala com Duque em uma mão e a caneca na outra. A caneca tem uma inscrição que diz: “‘Guenta’ firme”.

Já na sala, senta-se numa poltrona estilo vitoriano e coloca o pato sobre uma mesa de centro onde há vários objetos de porcelana . Dentre eles está uma coruja com uma cara não muito amigável. Eric liga a TV e começa a mudar os canais. Para em um deles ao reconhecer uma cena paradisíaca de A lagoa azul. Sente-se nostálgico. Ele olha para Duque e, percebendo a presença da coruja enfezada, o coloca do seu lado esquerdo, sobre um dos braços do sofá. Dá um gole na caneca de suco e a coloca no braço oposto.

“Olha o mar, Duque” — diz ele.

Um barulho vem de fora. Parece ser da caixa de correio. Ele se levanta e vai em direção à porta. Abre-a e não vê ninguém do lado de fora. Observa o cadeado ainda trancado no enorme portão com grades de ferro e lanças afiadas no topo. A casa é cercada por ofendículos. Aproxima-se da caixa do correio — uma caixa de ferro fundido com detalhes em flores — e abre uma portinhola. Há um pequeno pacote com um pó branco dentro. Eric o pega. Ele pode reconhecer muito bem o que é e quanto pesa, só com o olhar. Deve ter dez gramas de cocaína. “Uma cheirada”. Ele dá uma olhada para a rua e procura por alguém. “Quem colocou aquilo ali?”

Ele retorna para dentro, caminhando devagar, está um tanto atordoado e confuso. Ao passar pela porta, vê Duque. Ele parece concentrado na TV. Eric passa em direção ao banheiro sem chamar muita atenção e com o pacote escondido.

Ao entrar no banheiro, ele se encara no espelho. Abre as mãos que estavam apertadas com o pequeno pacote e por um instante o observa. Lembra-se do quadro com a meta. “Talvez um prêmio por ter vindo tão longe, certo”? Ele se lembra da sensação que o pó lhe dará. Seu corpo é coberto por uma ansiedade que ele já não sentia há um tempo desde que aceitara o confinamento. “Quase lá!”. Por um instante ele faz menção de abrir o lacre, mas um barulho de algo caindo e se quebrando o faz parar e ter um calafrio. “O pesadelo!” Ele se lembra de Duque no braço da poltrona. “A porta aberta, o vento…”. Ele sai do banheiro correndo, os punhos cerrados.

Ao chegar na sala ele fica paralisado. Há cacos quebrados no chão e suco derramado. A caneca “‘Guenta’ firme” está quebrada. Duque continua vidrado em A Lagoa Azul. Há uma mulher em pé na sala.

“Leila?” — Eric diz.

“Será que a gente pode antecipar sua liberdade em dois dias?” — diz Leila.

Eric para por um momento. Era um teste? Ele abre a mão com o pacote ainda fechado. Leila o encara com um sorriso leve. Duque observa Richard e Emmeline se banharem no mar. Ele vai conhecer o mar. Dois dias mais cedo.