[diários alheios #2] — Para falar das putas

“Nesse ritmo, daqui uns dias, puta entra em extinção”

Arte de Harry Barton

Deixe eu te contar das putas, meu filho. Elas eram muitas naquela época. Um dia antes de eu me casar com sua avó, eu peguei uma puta, lá na Montanha. Ficavam várias por lá por fora. O homens todos iam lá. Mas também, seu bisavô não dava bobeira. A gente tinha que ficar na escada da casa deles, lá na Ribeira, sob a supervisão do velho e da velha. Não, não era a casa deles, era só de veraneio mesmo. Quando a gente ia à praia, tomar banho eu e sua avó na água juntos? Nem pensar! Seu avô mandava as irmãs ficarem lá, de olho. Ia cada um de uma vez. A gente ficava num tesão da porra, mas não podia fazer nada, dava uns beijinhos, o pinto ficava duro… só ia saciar no dia da lua-de-mel mesmo. Aí você tinha que se virar. Ia lá, era na Ladeira da Montanha. A região era popular, ficava cheia. Tinha os maiores e mais conhecidos bordéis de Salvador. Tinha tudo quanto era mulher. Tudo quanto era tipo. Hoje em dia você não vê quase puta nenhuma por aí, tem uns gatos pingados. Tem muita boneca também. E você pensa que não? Naquela época tinha muito desses… Como é mesmo o nome? Como é que eles chamam? Travesti, isso. É… você acha que é só hoje? Naquela época tinha quem gostasse dos “travecão”. Os caras iam lá e na entoca pegavam de tudo. E tinha de tudo. A cidade tinha um lado sujo, aquele centro era a zona, rapaz. Empesteado de puta e tudo que não prestava. Era lá que o povo ia pegar lança, onde tinha casa de jogo. Bandidagem pintava e bordava por lá. Hoje ainda tem muita porcaria lá no centro, herança desse tempo. E as mulheres eram direitinhas, não tinha essa de dormir com a namorada não. Se não casasse? Nem a pau. As famílias eram de respeito. A gente respeitava. Quer dizer, você saía com putas, saía, mas é uma necessidade do homem, né? Não era nem traição, era necessidade mesmo. Se não saciasse, como é que fazia? Não tinha essa de namorado dormir na mesma cama antes de casar. Hoje você vê aí, ó. Seus primos todos… os namorados e as namoradas debaixo do nariz de teus tios. Isso naquela época era um absurdo. Mas hoje não. E as putas tão sofrendo com isso. As putas perderam o emprego por isso. Quer dizer, naquela época, você não podia transar com sua namorada, ia matar a vontade com as putas. Hoje você pega sua namorada e não tem cerimônia. Puta pra quê? Seu pai mesmo, comeu o pão-que-o-Diabo-amassou comigo. Era mesmo. Só ia de calça pra ver tua mãe. Dez da noite tinha que sair. Era jogo duro. E eu passei por isso com seu bisavô. E foi pouco? Era dez da noite meu limite também. Quando dava dez, dez e quinze— às vezes passava um pouco — ele dizia assim, do outro cômodo: que horas são? Era a hora de ir embora. E a gente ia se despedir, fazia aquelas carícias, né? Ficava excitado. Não tinha jeito. Ia ver as putas. Hoje isso acabou. Nesse ritmo, daqui uns dias, puta entra em extinção.