E se…?

Foi aquele momento em que todas as memórias voltaram. Um flashback instantâneo por conta de um simples fato. Era um término. Uma pequena morte de algo que estava apenas começando, mas já mexia demais com a cabeça. E o coração, por que não dizer? Então, aquele clichê de que vemos a nossa vida passando pelos olhos quando encaramos o fim de tudo se tornou real. Obviamente, não de uma forma tão trágica. E se o flashback parecia curto devido ao pouco tempo juntos, por outro lado, o que se viu foi um sonho se partindo em milhares de pedaços. Aquelas infinitas possibilidades que se desfizeram com uma simples e (não tão) curta conversa.

Melhor lido ao som de:

Eu lembrei do momento que a gente se conheceu. Da camiseta que iniciou o papo. De como durante o primeiro encontro ele contou que já tinha namorado um cara que, meses antes, eu estava envolvido. E eu não sabia, ou não lembrava, não tinha registrado a informação na época. O mundo é um ovo. De como havíamos falado anos antes e eu não tinha dado trela pra ele por… enfim, nem sei. De como isso gerou um conflito externo e, claro, algumas dúvidas emocionais. Mas nem isso tinha sido capaz de interromper o que estávamos tendo. Das trocas de presentes, físicos e intelectuais, de como eu o “ensinava” sobre o que era melhor ler pra entender algumas histórias em quadrinhos e do quanto brilhava o olho dele enquanto eu fazia os relatos, as críticas, as análises. De como ele tirava sarro do meu jeito “durinho” de dançar e eu revidava sobre o bico que ele fazia quando contrariado. Das nossas idas ao cinema, ao supermercado, a algum bar ou qualquer lugar que fosse e não tínhamos vergonha de trocar carícias ou beijos em público, de encostar a cabeça no ombro numa forma de dizer “eu adoro tua companhia”. E isso já era ótimo por natureza.

Eram as lembranças de como nos entendíamos na cama, não importando a posição. Seja na hora do sexo ou dormindo de conchinha. Aliás, mesmo naquele calor insuportável do verão portoalegrense, a gente não conseguia desgrudar nesta hora. Figurativa e literalmente. Cheguei a contar quantas vezes dormimos juntos e isso não havia ocorrido. Não teve nenhuma vez. Mais do que a química incrível na hora de beijar e transar, o que importava e aquecia mais internamente eram o abraço e o carinho depois de alguns cigarros, na hora do sono. Que sono, por sinal. E como aquilo tudo tinha sido interrompido e, talvez, nunca mais fosse rolar. Se pra ele era um sentimento de prisão, sufocamento, pra mim era libertador gostar tanto de alguém. Se ele mesmo foi capaz de chorar naquele término, como não pensar em quanto aquilo afetava não apenas a mim, mas a ele também?

Àquela altura nem as mentiras importavam mais. Não tinham sido muitas, mas magoaram, deram aquela quebra de confiança. Ainda assim, era impossível não pensar “e se?”. E eram vários “e se”. E se quando eu tinha tocado na palavra namoro tempos antes ele dissesse que sentia o mesmo? E se a mentira de dias antes fosse apenas uma bobagem para uma futura surpresa? E se déssemos continuidade a todos aqueles mini planos? De irmos juntos assistir ao show de uma drag de fora que nós adorávamos? De assistir aquele filme tão esperado com dois dos nossos heróis como protagonistas e aquela diva que é minha favorita? E se ele tivesse aceitado meu convite de viagem pro Rio de Janeiro? Uma semana, de férias, só pra curtir, tomar um sol, conhecer lugares novos?

Doía pensar naquele multiverso de possibilidades, de futuros e mundos possíveis. De como poderíamos estar felizes namorando numa terra paralela ou como bons amigos que tiveram um passado caliente em outra. Ou ainda outras infinitas variáveis que passavam pela cabeça, do amor ao ódio. Muito drama? Talvez. Mas será possível não ser dramático quando a gente gosta, quando queremos algo mais e nos esbarramos com um muro?

Na verdade, é bom fazer este drama todo. Chorar até não poder mais. Botar tudo pra fora. A gente aprende muito sobre nós mesmos e sobre o que sentimos. Não só sobre uma relação específica, mas com tudo que nos cerca. A gente sabe que não vai “morrer de amor”. Até porque, na época, nem era isso. Ninguém quer crime passional aqui. Mas assim entendemos que precisamos nos reciclar. Voltar ao começo. Erase and rewind. Quando conseguimos expirar tudo que a gente pensa e sente, se renova. Quem sabe, fica pronto pra algo novo. De novo. Um sonho, talvez. Com os mesmos 50/50 de chances. E mesmo com metade das possibilidades sendo negativas, não deixa de tentar. Até acender aquela chama de novo. E ela acende, sim.

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