Nuvens

Ele tinha uma cara de brabo. Bonitinho, mas não era aquele tipo que chamaria atenção numa primeira olhada. Tinha um certo estilo, mas, de forma geral, meio comum. Talvez já demonstrasse uma certa desconfiança de início. Dele com o mundo e de todos com ele. Porém, aquela coisa: tinha bom papo, conhecia bastante coisas, era razoavelmente culto. Entendia de cinema hollywoodiano e europeu, literatura estrangeira, pop e indie, séries, animes, histórias em quadrinhos. Várias armas pra me deixar interessado. Ainda assim, não passava uma grande verdade. Era como se sempre escondesse algo. Só mais tarde eu saberia o que.

Melhor lido ao som de:

Saímos uma vez. Duas. Três. O negócio começou a desenvolver. Começamos a dormir direto na casa um do outro. Desenrolando legal até. Mas sempre tinha algum problema. Tinha perdido dinheiro em algum lugar. Algo aconteceu no trabalho. A mãe que enchia o saco. Algum amigo que queria fazer algo e ele não estava afim. Aliás, quase não tinha já, ia ficar sem nenhum, eu pensava. Era sempre reclamações. Até então achava o jeitinho rabugento engraçadinho. E assim fomos indo, vendo no que dava.

Eu tentava ajudar. Essa mania eterna de querer ser “pai dos outros”. Qualquer coisa do gênero que me dê um pouco de controle. Ou ilusão de, o que é mais fácil. Mas ali nada adiantava. Cabeça dura até não poder mais. Com isso, começaram a surgir algumas discussões. Nem sei porque tentava algo ainda. Nada entrava naquela cabeça. Ou, se entrava, saía dois segundos depois. Logo vi que era muito “eu e foda-se o resto”. Um egocentrismo exacerbado. Uma falsa modéstia. Dizia que não gostava de se mostrar muito, mas era de uma preocupação com a aparência, uma vaidade, uma falsa timidez que só vendo. Até aí, ok. Quem nunca, não é.

A situação começou a piorar com as mudanças de humor drásticas. Uma hora queria tudo, na outra nada. Eu já tinha captado o jogo, então fingia entrar nele. Sabe aquele ditado (adaptado) de “enquanto ele colhe o trigo, meu pão já está quentinho saindo do forno”? Era mais ou menos isso. Eu tenho o (péssimo) hábito de ir até as últimas consequências pra ver alguma verdade nas histórias. Preciso concluir, ou não sinto que vivi qualquer coisa. Mesmo uma relação tão destrutiva como essa.

Logo vieram as brigas. Os dias sem se falar. Ele voltando como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse feito alguma bobagem, falado alguma besteira. Nem dá pra dizer que eu ficava magoado. Era só falta de paciência. Paciência que, por sinal, diminuía cada vez mais à medida em que as conversas também começavam a esfriar. Ele desabafava, me enchia os ouvidos (ou olhos, caso fosse no Whatsapp), buscava conselhos, alguma palavra amiga. Não tinha ninguém, né? Dava pra entender bem porque ninguém gostava mais de conviver. Só que, quando eu precisava fazer o mesmo, nunca tinha tempo, paciência ou qualquer coisa do gênero.

Um dia enchi de vez. Tive aquele momento Vera Verão com ele. Epa, epa, epa! Desaforo pra cima de mim, nunca mais. Não se faz isso com quem só tenta ajudar. E ainda assim ele queria continuar conectado de alguma forma, sabendo que, até então, era em mim que ele podia depositar toda aquela carga negativa. Só que eu já tinha saturado de vez. O jogo ali tinha acabado e ele nem tinha se dado conta.

O problema de pessoas assim é que elas não sabem aproveitar. O momento, o outro, o mundo. Tudo está sempre naquele copo meio vazio. Todo o pensamento é negativo, nada vai dar certo. Realmente, um saco de conviver. Aquelas nuvens tomam conta de tudo. O clima fica estranho. E qualquer energia positiva que a gente tenta levar é sublimada por essa escuridão. Ele podia se achar o Batman, mas acho que nem o Bruce Wayne conseguiria ser tão pra baixo. Ao menos o ricaço tem motivo, traumas pra isso. Ali não. Era só um poço sem fundo. Um sanguessuga sem vergonha nenhuma de extrair o que há de melhor nos outros sem se preocupar com as consequências dos próprios atos. E o pior de tudo: permanece assim até hoje fazendo o mesmo com os outros. Infelizmente, tem gente que não aprende com as próprias burradas que faz.

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