Ontem

Era uma dessas manhãs cinzentas, levemente frias e sem graça, como um verdadeiro dia de outono em Porto Alegre. Eu recém tinha acordado, era meio da semana, e logo mais ele ia chegar pra gente ter aquela conversa. A derradeira. Há tempos nós só brigávamos e não havia jeito de se acertar. Ficamos vários dias sem nos falarmos desde a última ocorrência. Morar distante agravava ainda mais a situação.

Melhor lido ao som de:

Então, não tinha como não pensar em tudo que a gente tinha passado até chegar naquele ponto. De como nos conhecemos e nos encantamos em uma festa por conta de um amigo em comum, de falarmos todos os dias por semanas até rolar um primeiro encontro que, logo depois, engataria o namoro. Do jeito desajeitado dele de tomar o primeiro passo, de como um torrone (sim, um torrone) se transformou numa desculpa para um primeiro e demorado beijo. Mas sempre batia na cabeça que isso era passado. Ontem.

Onde estava aquele romantismo dos primeiros meses em que, mesmo ele não sendo de falar muito o que sentia, conseguiu soltar um “onde tu tava esse tempo todo?” numa das noites mais amáveis que vivemos e eu tive a sorte de estar ali e ser um dos protagonistas. Do primeiro “eu te amo” num réveillon acompanhado do momento picante em um guarita durante a madrugada na praia. Dos filmes e séries em casa que a gente assistia sem parar comendo todas as bobagens do mundo fazendo pausas só para… Bom, aquilo. Ontem.

Quase três anos de convivência quase diária. Quer dizer, tivemos uma pausa nesse período acompanhada da distância que tomou forma fisicamente por conta de uma oferta de emprego. Não foi o motivo de tudo, mas catalisou a distância emocional também. A gente tentou que isso desse certo de diversas formas porque a gente sabia o que sentia um pelo outro e que não era nada fraco. Muito pelo contrário. Mas há alguns meses eu já sentia, ainda que não quisesse admitir, que não iríamos longe. Em 25 dias das minhas férias de janeiro ficamos juntos 24 horas por dia, num ambiente totalmente leve, no litoral. Porém, o fogo daquela paixão doida do início ja tinha passado e não parecia mais ter volta. Sexo todo dia? Juras de amor? Pedido de casamento? Ontem.

Foram diversos momentos incríveis, outros nem tanto, e alguns até ruins. Mas a gente se conhecia por inteiro. Ou, ao menos, o máximo que conseguimos numa relação que todos julgavam ser perfeita. A maior parte dos meus amigos amava ele. O mesmo acontecia com os deles em relação a mim. A mãe era apaixonada. “Como está meu norito favorito?”, ela perguntava sempre. Ontem.

Então, quando ele chegou, nós já sabíamos o que aconteceria. Nem levantei da cama porque ele tinha a chave do apê. Não tinha muito mais a conversar. Não brigamos. Pelo contrário. Foi um comum acordo de que aquilo tudo que passamos… Passou. Pedimos desculpas pela última vez por erros que os dois lados cometeram. Aquilo tudo havia se transformado numa amizade intensa de respeito e carinho. Então, quando ele foi embora com aquele último beijo, a sensação não foi de tristeza. Foi de felicidade mesclada com alívio. Nao por ele, mas pela situação que não dava mais pra sustentar. Foi lindo e tivemos a sorte de ter vivido uma relação assim, que vários almejam e não conseguem. Ontem. Ontem. Ontem.

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