Ria

Não lembro mais quanto tempo ficamos sem nos falar. Um mês? Talvez mais. Estar cara a cara, então, mais ainda. Então, fiquei surpreso com o convite pra botar o papo em dia ao vivo. Aceitei. Já tínhamos passado por tanta coisa e, independente das brigas, das discussões, dos meus dedos na cara e da complacência dele, a gente sempre se acertava. Às vezes na cama. Noutras, fora dela mesmo.

Melhor lido ao som de:

As conversas eram sempre divertidas, acima de tudo. Tínhamos os mesmos gostos em várias coisas. Podíamos passar a noite em claro falando que renderia assunto. Engraçado que nunca era sobre a gente. Nada muito pessoal. Ou, ao menos, que envolvesse a vida amorosa sexual. Era quase como um comum acordo silencioso de que a gente não queria saber o que o outro andava aprontando. Ou queríamos e tínhamos medo da resposta?

Mais do que tudo mesmo, ele me fazia rir. Sabe aquele velho clichê que a gente vê nas comédias românticas sobre como a pessoa se apaixonou pela outra por causa disso, do fazer rir? Então, talvez eu seja condicionado assim por Hollywood, pela sociedade, blá blá blá. Mas funciono do mesmo jeito. Posso gostar de tipo físico assim e assado, mais cheinho, mais magro, com músculo ou braço fino, com barba ou sem. Enfim. Se não me fizer rir, no game. No máximo uma coisinha de 15 minutos.

Aceitei vê-lo. Eu queria saber se ele ainda era capaz de fazer eu soltar minhas gargalhadas de Al Capone. Nos encontramos. Como eu disse, falamos de tudo. Tudo. Ao menos, do universo pop. Um pouco de trabalho. De planos pra vida. Mas, obviamente, nada no quesito romântico sexual. Isso até era o de menos. A gente sabia que essa história de “vamos ser só amigos” era, enfim, só uma história. Então, saber tudo um do outro seria um balde total de água fria. Não que a relação já não estivesse gelada o bastante.

Teve alguns momentos que parecia. Parecia, eu disse. Parecia que íamos nos tocar. Quem sabe aquela mão boba. Uma encostada que levasse a um beijo e, consequentemente, a outras coisas. Tinha uma tensão no ar. Sexual, especialmente. Ainda mais com o perfume dele. Esses tempos uma amiga escreveu sobre como o cheiro de uma pessoa era algo que conhecíamos desde o início e seria a última coisa a esquecer. O olfato traz lembranças. Eu que o diga, já que tenho problemas com odores. E ali as memórias eram muito recentes.

Mas havia algo mais. Como se tivesse quebrado algo. A confiança já tinha sido e sabe-se lá se um dia seria restabelecida. Era como se os dois quisessem falar algo que não era bem aquilo que dizíamos. A gente não conversava mais como antigamente. Mensagens subliminares? Comigo não funciona muito, gosto de algo direto. Porém, aquele dia não estava a fim disso.

Quando a gente se despediu, rolou aquele clima estranho. Nos abraçamos? Damos um beijo na bochecha? Como a gente se trata? Era estranho ficar nessa coisa no meio do caminho. Era muito dito pelo não dito. Foi um tchau sem sal mesmo, mas combinamos de fazer “qualquer coisa” dia desses. Aí eu me dei conta. Não foi apenas o fato de não ter rolado nada mais caliente. Nem o papo que, apesar de meio trancado, não estava ruim. Pelo contrário. Mas aquela noite ele não me fez rir. Não como antigamente. E sei lá se vai me fazer rir de novo algum dia.

Like what you read? Give Matheus Bonez a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.