7 Dicas pra um Motion Designer em crise (ou no início)

Primeiramente, eu sempre quis escrever textos e artigos no medium mas nunca tive realmente a coragem de sentar e escrever.

MAS.

Esse dia chegou! Finalmente estou aqui.

Acho que além de poder jogar ideias e esvaziar a mente, o medium é uma grande plataforma de ajuda também, não?
Então, preciso começar falando da coisa que eu atualmente mais domino que é Animação e Motion Design, área essa que trabalho desde que me mudei pra Porto Alegre, lá em 2014 (que foi, inclusive, quando comecei a faculdade).

Mas, primeiro devo me apresentar a vocês:

Matheus Canto, 21 anos, Graduado em Produção Multimídia pela FATEC SENAC/RS e em Animação 3D pela Elemental School (também aqui de porto alegre!).
Comecei minha “carreira” no mundo da animação digital ainda bem novo, com 15 anos e fui ganhando gosto pelo negócio, inicialmente fazia os ditos “lyric videos” pra bandas de amigos ou mais chegados, ganhava muito pouco mas tinha muita SEDE de aprender e botar em prática tudo o que eu aprendia na internet (Sim, apenas na internet, e isso é um problema que eu vou explicar já já).
Já passei por muitas produtoras em Porto Alegre e pude acompanhar de perto o workflow da maioria delas, algumas muito legais, outras nem tanto assim, mas tudo na vida é aprendizagem e conhecimento (levem isso pra vida de vocês, PRINCIPALMENTE se tu trabalha com criação).
Hoje em dia sou Motion Designer da MpQuatro, a empresa que finalmente escolhi pra ser a minha do coração, todos os dias fico mais feliz de estar lá e isso conta muito pra tudo que eu faço na minha vida.
Ja trabalhei com clientes muito pequenos e também com alguns muito grandes (Panvel e Zaffari os mais recentes), e o mais legal disso tudo é que tu consegue entender a cabeça das empresas de todos os níveis, desde os mais “baixo orçamento” até os mais pendantes pela qualidade acima de tudo.

Enfim. Sem mais delongas.


1. Calma, sério.

Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida de animação e finalização, é que não importa o quanto tu sabe de técnicas e programas, tu SEMPRE vai ter que ter o background de muitas referências, muita conversa com gente melhor, muita análise de caso.
Que foi o que me deixou muito frustrado na época, quando eu cheguei em Porto Alegre, eu poderia ser fácilmente chamado de um “sobrinho” de After Effects, eu sabia exatamente como fazer tudo, mas olha só que engraçado, eu não conseguia ter pensamento CRIATIVO nenhum sobre nada, porque óbviamente eu só sabia EXECUTAR e não PLANEJAR, e isso é muito mas muito mais importante que a parte do “braçal”.
E isso meus amigos, demanda muita calma, muita pesquisa, muito olhar crítico, muito perguntar “o meu, tá bom isso aí? o que tu achou” e ir moldando o teu olho e principalmente o teu cérebro e o teu pensamento criativo a pensarem mais “fundo” nas peças.
E leva TEMPO. MUITO TEMPO.
Então, calma.

2. A tua ideia mais foda, não vai ser a ideia mais foda.

Nós, Motion Designers temos a ilusão de que se tu envolver muita técnica, e muita “firula” vai ficar muito bom, e tu só vai precisar de tempo pra fazer, e vai ser a melhor coisa do mundo.

-NO!

Eu já fiz no mínimo uns 30 motions onde eu planejei desde o começo, roteiro, storyboard, animatic, style frame, animação e no final eu olhei e falei:

Cara, que tremenda bosta.

E isso é realmente muito normal.
O que acontece é que quando nós estamos planejando algo pra nós mesmos, tendemos a nos focar na realização “técnica” que é o famoso “vou fazer um 2D tradicional, um 3D, um 70D, um background muito loco e vai ficar do caralho!”
Só que não nos apegamos na ideia em si, no sentido daquilo tudo, geralmente quando nós botamos muita técnica nas produções e não pensamos no sentido, elas tendem a ficar sem sentido, e apenas um monte de firulas e emaranhados de layers que enchem os olhos de quem PRODUZIU apenas.
E cara, como dói tu mostrar a tua obra prima pra alguém, e ela falar:
“caralho, achei muito ruim”

Isso dói na alma. Mesmo.

E isso já me aconteceu em um trabalho. de um cliente grande.
Eu me foquei tanto em fazer o 3D da cidade aérea que no final quando eu tinha FINALMENTE acabado, o diretor olhou pra mim e disse

“Velho, que que é isso?”

E a minha alma foi perfurada por uma espada de lâmina invertida.
E eu tive que concordar com ele que tava muito ruim.

3. Desça do salto do “Cara, eu que sei de animação”

Eu entendo, eu realmente entendo que tu se dedica horas e horas por dia em algo, e se alguém que não sabe absolutamente nada vem e te fala:
 “ah meu, não gostei muito não”

E tu fica puto da cara, e lança o textinho pronto do designer conceitual que tem a arte muito diferenciada que ninguém entende.

Caras, sim, o teu público é o consumidor, é o espectador, se ele achar ruim, mesmo que tenha 30 conceitos diferentes… Não funcionou!
E essas situações são sempre boas, porque se tu souber lidar com ela, tu sempre vai tirar algo proveitoso daquilo, não é porque alguém te disse uma crítica e tu não concorda que tu vai desrespeitar a pessoa, não é?
Ouve, tenta entender e se fazer sentido pra ti e pro teu vídeo, altere!
Não há nada melhor que tu fazer algo que agrade cada vez mais pessoas e que, tudo bem, pode ser algo chinelão, mas o teu público vai gostar, e no final, tu trabalha pra isso!
As empresas te pagam pra atingir o público delas e deixar eles felizes.
Qual seria o motivo de tu trabalhar pra uma coisa, mas muitas vezes por ego, ou insistência, não atingir o motivo do teu trabalho?

Vou para-frasear uma banda da qual eu já gostei muito:

“You won’t ever fly fast enough to make time stand still,
STOP. LISTEN AND LEARN.”

4. Aprenda tudo que não muda.

O After Effects é legal mas, e daqui 3 anos? Será que ele ainda vai estar no mercado? 
Por outro lado, os 12 princípios da animação que foram introduzidos lá em 1981, ainda são usados em TODAS as peças de animação que tu encontra por aí.
Qual é mais proveitoso pra ti como Animador? Saber os princípios que são universais, ou do programa que pode amanhã mesmo, já estar ultrapassado?Uma coisa que eu sempre levei na vida é que todo conhecimento é válido.
E isso inclusive aconteceu no meu curso de Animação 3D.
Agora vocês param e me perguntam:
-Matheus, tu quer trabalhar com Animação 3D?
-Hell fucking no.

Eu nunca quis trabalhar com animação 3D, mas quis entrar no curso justamente pelo outro lado da moeda:
Pra entender a animação 3D e saber o que é universal, e o que não é.
Eu passei 10 meses dentro do Blender animando, e vocês realmente acham que eu sei alguma coisa sobre Blender? nada. nothing. nadica de nada. caralho nenhum.

Mas eu sei o que faz uma boa animação 3D, e o que não faz.

E isso é com certeza muito mais importante que tu saber o programa, porque é muito fácil tu chegar pra alguém e dizer “faz assim, e faz assado” do que tu aprender todo o workflow de um programa específico e não saber fazer nenhuma animação boa, entende?
Muito mais do que tu ter a competência na ferramenta (que claro, é importante também se tu for operador, ou freelancer), o mais importante é tu saber o que é algo bom, e o que não é.
E também estamos em 2017, tu sabendo das regras universais de qualquer coisa, tu aprende a ferramenta em 20 minutos e faz algo muito melhor do que alguém que tem 10 anos de ferramenta mas nenhum de conceituação.

Tendo os conhecimentos universais em mente, tu pode animar em qualquer ferramenta, tu pode escolher a ferramenta que tu quiser aprender e executar, e essa flexibilidade é cada vez mais importante nos dias de hoje, principalmente se tu planeja trabalhar em local fixo.

5. Comece a cronometrar o tempo. Agora.

Não o tempo parado, mas o tempo trabalhando.

Saiba EXATAMENTE quanto tempo tu leva pra produzir tudo. E essa é uma das partes mais difíceis: Se conhecer.

Eu tenho problemas com isso até hoje, de chegarem pra mim com um deadline na produtora e eu começar a me descabelar porque vou ter que virar a noite produzindo e quando me dou conta:

20:20 eu estou saindo com tudo mais do que pronto.

O tempo que nós costumamos calcular é o tempo que a gente senta no PC, vê notícias, olha o facebook, olha o twitter, faz uma piada, responde uma mensagem, trabalha um pouquinho… Mas esse não é o nosso tempo de produção.

Quando tu inicia a fazer orçamentos freelancers, tu joga tudo lá em cima, 20 horas de trabalho, 40 horas de trabalho, quando na verdade foram 6 de animação e 6 de qualquer outra coisa.

Tu vai se surpreender com o que tu consegue produzir em 6 horas. sério.

E assim que tu começar a entender o teu tempo, e o tempo REAL das coisas, tudo fica mais fácil de planejar, porque ao invés de um freelancer de animação por mês, tu pode pegar muito mais e terminar em muito menos tempo, se baixar a cabeça e trabalhar.

Uma técnica que costuma ajudar muito a ter essa noção é o Pomodoro. (que existem inúmeros aplicativos na Play Store e na App Store)
Onde consiste em:

Cronometrar 25 minutos de trabalho (sem distrações, sem facebook, sem nada).
e depois descansar 5 (O alívio pros black mirrors que querem ficar scrollando a timeline do facebook toda hora).
E então, após esses 5 minutos, mais 25 minutos de produção intensa, e depois mais 5 de descanso.
Isso MUDA a tua perspectiva sobre o que tu consegue fazer em algumas horas. 
E isso também te empodera, porque tu começa a ganhar mais tempo pra fazer autorais, everydays e tantas outras coisas.

6. Treine todo dia. Comece hoje.

Uma coisa que eu aprendi com um grande amigo foi que com treino diário tu cresce 700x mais do que apenas em jobs, ou coisas pagas.

Eu cansei de chegar de festas as 4:00 da manhã, e começar a fazer motions rápidos por simplesmente ter me inspirado em alguma roupa, algum objeto que tinha na rua, QUALQUER COISA.
E ficar realmente muito bom, e eu me surpreender com isso.
Claro, fazer as coisas rápido quase nunca é bom.

Mas focar em algo pequeno e fazer o melhor que tu consegue em menos tempo, é bom e te ajuda muito a crescer.

Todos nós estamos acostumados a pegar um job grande, e produzir ele do começo ao fim, muitas horas de trabalho, mas isso nos dá uma “megalomania” de produção que não é boa.

Produza coisas pequenas também, de no máximo 10 segundos, e gaste duas horas naquilo entre design, rigging (se for um personagem), animação, render e postagem. Tu vai ver que o resultado vai ser algo que tu nunca pensou conseguir fazer, que tu nunca imaginou que conseguia, porque estava muito ocupado pensando em grandes coisas e jobs gigantescos.

Start today.

7. Deixe que as pessoas saibam o que tu faz, e no que tu é bom.

Como eu já disse uma vez em uma palestra:
“Cara, todo mundo quer ser o rapaz legal do facebook que posta gif de gatinhos, mas não seja esse cara.”

Não seja o cara dos gatinhos e dos posts que todo mundo já vê 700 vezes por dia.
Se tu produz algo que é teu, e é autoral, porque não mostrar pra todo mundo?
O meu primeiro emprego em Porto Alegre foi ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE porque eu mostrava meus trabalhos no grupo da faculdade.
Porque eu mostrei o que eu fazia, e mostrei o que eu sabia.
Ninguém vai chegar pra ti e perguntar o teu behance, ninguém vai chegar pra ti e te perguntar o que tu faz.
As pessoas tem que saber o que tu faz só de tu olhar na cara delas. 
E isso no meio acadêmico, principalmente no da criação, ABRE MARES.
Porque querendo ou não na faculdade sempre vai ter alguém com um job, um freela, ou algo assim, e eles vão sair perguntando pra todo mundo quem que sabe fazer animação? Não. Eles vão ver o cara que postou a animação dele no grupo, e vão chegar direto nele.

Sério, não tem essa de “o que eu faço não é bom o suficiente ):”
Ninguém nasce bom o suficiente.

A evolução é uma das coisas mais gratificantes de se ver depois de 3, 4 anos de trabalho (principalmente em animação).
Então, deixe que todos vejam a tua evolução.


Resumo de tudo isso?

O mercado da animação é amplo e todos tem lugar nos mais variados quesitos, todos aprendem de um jeito diferente, e todos tem o seu modo de ver o mundo e de produzir as coisas.
Mas como todo trabalho, ninguém sai da faculdade sabendo, ou o melhor do mundo, é preciso de experiência, de vivências pra tu aos poucos ir moldando a tua técnica e a tua arte do jeito que tu quer e que tu acha bom.
Temos a ilusão de que por ser uma coisa fácilmente de ser “aprendida” na internet por qualquer um, que é fácil ser bom, que é fácil se destacar, mas todo mundo pensa assim, e geralmente os que pensam assim são os que não se destacam.
Então, se tu gosta de uma coisa e quer seguir a vida com ela, porque não se destacar de maneira positiva?
Pergunte. Leia. Assista. Se especialize. Bote a cara pra bater.

Já dizia o coordenador do meu curso de graduação:

“Cara, faz! E depois pede desculpas”

Pra quem chegou até aqui, espero que esse texto tenha te ajudado de alguma forma e muito obrigado!

That’s all folks!