Sobre whisky

A concepção aristotélica de felicidade envolve a noção de viver bem ao longo de uma vida inteira, em vez dessa noção como um senso apenas psicológico, como definido pela concepção hedonista. Segundo Aristóteles, viver bem envolve o desenvolvimento do senso moral, emocional e racional. Em Nicômaco, a felicidade é a soma total de uma vida; isto é, a medida sobre a vida humana de quão longe nós conseguimos nosso objetivo de viver bem. Portanto, estaríamos errados em pensar que a felicidade é apenas um estado psicológico flutuante e momentâneo. Assim o é com a bebida. O conceito de felicidade de Aristóteles não pode ser confundido com um estado puramente mental de euforia, nem deve ser confundido com a sensação flutuante de prazer. Em vez disso, devemos pensar em felicidade em termos de floração, daquilo que floresce, ou daquilo que se completa aos poucos até a completude.

Concordo com Aristóteles que há mais na vida do que fazer o que é bom; muitas vezes perseguimos objetivos que não são simplesmente sensações prazerosas momentâneas. Na direção e controle dos meus sentidos, na distinção da complexa variedade de sabores e cheiros até a beleza de um belo dram é onde encontro tais virtudes que me completam. Antigamente, em uma cidade onde morei, um amigo meu gostava da mistura alcoólica doce, de whisky com Coca-Cola e gelo, mas quase qualquer álcool teria o mesmo gosto se ele tivesse feito a mesma mistura. Ele não estava interessado em distinguir o carvalho, turfa e flavors de frutas cristalizadas no próprio whisky (e nem eu, na época). Isso foi porque ele não era um saboreador de whisky, ele era um bebedor apenas. Ele não tinha vontade de desenvolver as virtudes estéticas e o conhecimento da bebida, onde o whisky, nesse caso, era o foco. Se ele tivesse, e pelo que sei desse amigo hoje em dia, ele descobriria uma nova gama de experiências prazerosas e um novo conjunto de virtudes que servem para a vida.

Digamos que o bebedor de whisky é alguém que bebe whisky para satisfazer uma necessidade corporal, isto é, uma simples sede ou um vício. Aqui a “necessidade corporal” está associada a desejos fisiológicos, como é com a cafeína e nicotina, ou até mesmo outras drogas como cocaína, crack, heroína ou qualquer outra coisa. Por outro lado, o saboreador de whisky bebe whisky sabendo que um prazer corporal será cumprido, acrescentando o benefício de um reconhecimento mental desse cumprimento. Aqui, não é apenas uma necessidade corporal não-consciente e animalista que está sendo cumprida (embora possa ser); há também a percepção consciente e experiencial do fato de que uma necessidade corporal está sendo cumprida ou saciada.

Assim, enquanto que o whisky — potável, desperdiçável, de baixa qualidade, baixo tempo de vida — satisfaz uma necessidade corporal que é não-consciente e fisiológica (até mesmo animalistica), o whisky — saboreado, sofisticado, gentrificado, sentido — satisfaz uma necessidade mental consciente e experiencial (e provavelmente reservada somente para seres humanos). Em outras palavras, há algo no reino mental que o torna distinto do reino corporal, o primeiro é o saborear, enquanto o segundo é o beber inconsciente.

Eu normalmente tendo a descartar o cientificismo — como na minha crítica à neurociência — nestes casos mais particulares, mas aqui talvez seja importante ressaltar alguns pontos que diferem alguns estados físicos e mentais consciêntes de outros inconsciêntes, e também o limite entre uso benéfico e maléfico, assim como a afirmação de que o uso pode de fato ser benéfico e não apenas prazeroso. Aos viciados em cientificismo, caso não lembrem — o texto foi postado no grupo — , no texto sobre neurociência eu ressalto que:

a dinamica de uso, abuso e dependência é sempre apanágio da interação usuário-substância, de maneira q o limiar para o rebaixamento intelectual do indivíduo não é uma grandeza qualitativa nominal, mas sim quantitativa contínua. Não obstante, existem indivíduos que possuem cognições disfuncionais inatas e podem se valer de substâncias psicoativas (inclusive álcool, tabaco, maconha e cocaína ou demais simpatomiméticos) para obter um funcionamento tido como dentro da normalidade para o ser humano.

Precisamente, por fim, afirmo-lhes com toda certeza e sobriedade, que hoje vejo que a bebida, particularmente o whisky, tem sido uma base sólida na minha formação, justamente pelos motivos supracitados. Cientificamente ou não, a bebida tem de fato sido algo que me fortalece dia após dia, pois é do controle que me surge o desenvolvimento do senso moral, emocional e racional.

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