Farinha do mesmo saco?

Matheus Galione
Jul 24, 2017 · 3 min read

A menos que se tenha passado os últimos doze meses em coma profundo, todos conseguem enxergar que o Brasil está mergulhado em um hecatombe político digno de um romance de David Lynch. Os áudios gravados e vazamentos para a imprensa colocaram o país de ponta cabeça e mudaram alguns dos discursos por parte da opinião pública.

A explosão monumental que foi a divulgação das gravações de Joesley Batista (JBS) envolvendo Michel Temer (PMDB) e Aécio Neves (PSDB) serviu como um pequeno choque de realidade momentâneo para uma grande parcela da classe média antipetista que ainda enxergava no senador tucano uma imagem quase heróica. O discurso mudou para aquele papo cretino de que “todos os políticos são farinha do mesmo saco”, mas será que realmente todos os casos de corrupção são motivados pelos mesmos interesses?

O caso mais concreto — e mais comemorado pela direita — de corrupção no Partido dos Trabalhadores foi o Mensalão, que funcionava quase que como uma mesada para parlamentares aprovarem os projetos vindos da presidência de Lula, mas quais projetos eram esses? Eram projetos que mudaram a cara do Brasil e começaram a diminuir um pouco as desigualdades sociais históricas. Não foi nenhuma revolução, mas sim uma flexão moral para fazer que um congresso engessado por um sistema político conservador aprovasse leis bastante progressistas. Foi sim um esquema de corrupção e uma perpetuação desse modelo arcaico de fazer política, mas além disso também foi o esquema que fez com que em 2014 essa fosse a cara do Brasil:

No caso dos Tucanos a coisa é diferente, pois os casos de corrupção são na maioria das vezes uma pura e simples manutenção de esquemas de coerção política e promiscuidade entre o mercado e a classe política, que tem uma característica extremamente fisiológica e de manutenção no poder. O caso muito obscuro da compra de votos para passar a emenda da reeleição em 1997 na era FHC é um grande exemplo disso. Para piorar existe uma blindagem inegável aos membros do partido, seja por meio da PGR da época de FHC — que ganhou o carinhoso apelido de Engavetador Geral da República — seja por meio dos comparsas no judiciário como o ex-tucano Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes ou o BFF na foto aí embaixo.

Ora, um partido como o PSDB, que se vendeu durante toda a campanha de 2014 como o bastião da luta contra a corrupção, faz parte hoje do governo Temer que bateu o recorde de investigados pela justiça em um só gabinete, sabe porquê os tucanos ainda não saíram do governo? Geraldo Alckimin explica:

O PSDB só está no governo para garantir que a agenda seja a agenda do mercado, e por mais que o PT tenha atendido a muitas demandas desse mesmo mercado é impossível olhar pros dois casos como se fossem “todos farinha do mesmo saco”.


A esquerda agora não pode continuar achando que pode usar as mesmas ferramentas de antes, Lula foi condenado na mesma semana que Aécio voltou ao senado depois dos áudios da JBS. O próximo passo é exigir que as eleições aconteçam com um projeto forte que tenha como pauta a retomada da reforma política, pois só assim o sistema eleitoral consegue ser refundado e o fisiologismo de alguns partidos entra em colapso, liberando o congresso de esquemas que se tornaram quase que necessários para a governabilidade e abrindo caminho para uma nova era política no país.

Matheus Galione

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Estudante de História que gosta de dar uns pitacos sobre as coisas.

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