Geek Acéfalo Motorizado — Parte II

Se você não leu a Parte I, ela está aqui.

Ao chegar no guichê de atendimento, perguntei onde era o pronto socorro.

Uma senhora muito boazinha me respondeu, levantando lentamente os olhos na minha direção:

“Só um minuto que eu já te… MINIIIINO DO CÉU!!”

e deu a volta no balcão, toda esbaforida, me pegando pelo braço e me levando até o médico de plantão.

O cara tinha uns 50 anos, meio “to-nem-aí” mas foi legal comigo. Como eu tinha um corte profundo abaixo da boca, ele propôs terminar de furar e colocar um piercing. A princípio eu gostei da idéia.

Ele limpou, fez sutura, costurou e fazia tudo parecer bem divertido. Ao menos pra ele.

Terminado o serviço, me mandaram para um quarto. Chegando lá, fui obrigado a vestir um avental frente-única, de cueca. Porra, eu machuquei o rosto, pq tenho que ficar com a bunda de fora?

Bom, ninguém me explicou e alí eu fiquei até que me trouxeram uma comida estranha, uma coisa gelatinosa e rosa da qual eu fiquei com medo de me aproximar. Parecia “A Coisa”, só que com corante.

Lembrei nesse momento que eu precisava depositar uma grana para o meu pai, pra cobrir um cheque que pagava uma parcela, claro, da moto.

E quem disse que a enfermeira queria deixar eu sair? Prometi pra ela:

- “Eu deixou meu RG aqui!”
- “Não…”
- “Mas eu vou e volto rápido”
- “Não pode senhor”
- “Eu te trago um chocolate”
- “humm…”

Quem não gosta de chocolate?

Agora liberto, fui caminhando com um avental, bunda de fora, pela Avenida Ibirapuera até o HSBC mais próximo, que ficava a cerca de 50m da igreja que tem alí na praça.

Eu só tava levando o dinheiro, meu celular e não lembrava o número da conta do velho. Droga, teria que ligar pra ele e explicar o que aconteceu. A princípio eu tentei disfarçar:

- “Oi bai… udo em?”
- “Oi filho, que voz é essa?”
- “Ada bai, me bassa ua onta?”
- “Que?!”
- “Do Aá Ésse Bêcê, ai!”
- “Filho, que voz é essa?!”

Aí não teve jeito. Expliquei o ocorrido e levei uma senhora bronca, claro.

Fiz o depósito, voltei para o hospital ainda sob a agradável sensação de frescor da brisa oriunda do países baixos.

A enfermeira me cobrou o chocolate e eu disse a ela que não comprei pois aquelas máquinas que você insere dinheiro e um rabo de porco gira empurrando a guloseima simplesmente fez o que sempre faz: Não empurrou a parada direito.

Me encaminharam então para o dentista que meu plano de saúde cobria e lá iniciou-se o processo de restauração que, bom… digamos que não foi a coisa mais agradável desse mundo.

Só sei que desde esse dia em diante, eu passei a dar mais valor a capacetes e aventais fechados, à vida, aos meus amigos, ao meu tempo. Cada segundo se tornou precioso. Seja em cima de uma moto, seja usando a Internet.

Tudo culpa da Microsoft. Ou da internet discada.

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