Sobre sangue de dinossauro e como a Ciência funciona

Mary Schweitzer é uma paleontóloga, PhD em Biologia da Universidade do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

Em meados de 2016 ela publicou um estudo testando a hipótese de que, assim, talvez ela tenha encontrado células de sangue em um fóssil de um Tiranossauro Rex.

De acordo com o que sabíamos até então, isso não parecia possível. Ela explica a descoberta nesse vídeo:

Em algumas entrevistas que seguiram desde sua descoberta, ela afirmou estar um pouco receosa, porque mesmo depois de testar e confirmar suas hipóteses, ela sabia que iria enfrentar muita resistência, críticas e questionamentos da comunidade científica.

Alguns poderiam ver a reação da cientista com surpresa, e entender que a Ciência sempre luta para confirmar o seu próprio viés, que os cientistas possuem uma certa teimosia em aceitar ideias diferentes, que existe uma força tentando esconder essas descobertas e que por isso não deveríamos confiar na Ciência.

E é compreensível alguém pensar dessa forma, até certo ponto.

Acontece que questionar, ser cético, duvidar, esse é o posicionamento esperado de todo e qualquer cientista. Parece estranho, mas eu vou explicar:

O cérebro humano é uma ferramenta espetacular, mas essa ferramenta tem falhas. Umas delas é buscar o reconhecimento de padrões a qualquer custo, o que pode resultar em um viés de confirmação. E tem um motivo muito bom pro nosso cérebro fazer isso. O pessoal do do canal Minutos Psíquicos explicou muito bem como isso funciona nesse vídeo:

Apesar de ter ajudado a gente em algumas tarefas e em processos de aprendizado, podemos nos deixar levar por uma crença prévia que nos leva a uma conclusão que talvez não esteja certa.

É por isso que o método científico tenta eliminar esse viés de confirmação antes de aceitar uma conclusão como verdadeira.

Portanto, quando alguém publica um artigo científico, seu conteúdo passa a ficar disponível para outros cientistas analisarem e refazerem o experimento, tentar achar algum erro na pesquisa, para ver se eles chegam nas mesmas conclusões.

A ideia é justamente essa: para evitar que a gente aceite como verdadeiro algo que na verdade pode ser falso, primeiro a gente tenta ver se as premissas podem ser falseadas (por que existem algumas proposições que não podem, então elas provavelmente também não podem ser provadas corretas). Se puderem, eles tentam “provar que tá errado”. Demonstrar possíveis erros na metodologia, na amostragem, hipóteses que foram ignoradas, probabilidades das coisas, eventuais falácias, procedimentos que não podem ser repetidos, cálculos equivocados, coisas assim.

Não por teimosia, não pra esconder a verdade, mas pra chegar na verdade.

Se depois de analisar as evidências, eles não conseguirem provar que tá errado, então provavelmente aquela determinada hipótese tende a estar correta, e outros cientistas passam a usar aquele estudo como base para seus próprios estudos, em um constante ciclo de aprendizado coletivo.

E é por isso que o método científico é um dos mais confiáveis pra gente analisar a realidade que nos cerca.

E o que aconteceu quando outros cientistas passaram a perceber que o estudo feito por Mary Schweitzer estava correto? Eles passaram a divulgar seus resultados e o estudo foi aceito pela comunidade científica, divulgado em sites, revistas e publicações da área, além de sair em várias notícias:

E muitos outros exemplos. Então não é uma questão de teimosia, nem de esconder a verdade da população, muito menos de confirmar um viés próprio.

É justamente para garantir exatamente o oposto disso, para que a gente sempre evolua nosso conhecimento e jamais se deixe levar por uma ideia que não tenha evidências sãs.

Evidências essas que possam ser reproduzidas por outros cientistas e que nos levam um passo adiante nessa busca pelo entendimento da vida, o nosso universo e tudo mais.