O caramujo empacado (Ou como a depressão me colocou na boca de um abismo)

Há alguns dias eu venho discutindo com a minha cabeça, brigando comigo mesmo e percebendo minha loucura, sob uma perspectiva menos acrítica. Normalmente eu nunca falo comigo mesmo, sempre deixo aparentar uma leve distância sobre mim e o outro, sabe.

Nunca entendi se isso é realmente intencional, só acontece. Há dias eu penso em como o fundo do poço chegou a um tempo e procuro maneiras de escalar ele, mesmo que ele esteja coberto de lama, dificultando assim a minha subida. Nunca chego à uma conclusão sadia, sempre relembro péssimos momentos e vivo eternamente numa loucura quieta que fica entre a melancolia leve e uma barruada de carro. Fugir? Ultimamente anda sendo mais difícil do que nunca. Mesmo ébrio, sob o efeito de antidepressivos, maconha ou qualquer outra substância que me tire do buraco, eu ainda me sinto nele.

De onde vem tanta infelicidade, sabe? Será que mesmo pequenino eu já era triste e não sabia ou foi algo que tomou conta de mim com os anos? Eu realmente não sei, só sei que parece que sempre foi assim.

Me sinto preso, empacado, assustado e no escuro, com medo da claridade. Fico pensando que sou uma espécie de Smeagol do mundo moderno, que só deixa uma única luz clarear a sua vida, a diferença é que meu anel é um computador velho ou alguma substância que venha a tomar conta de mim por uns momentos numa noite.

Eu sinto saudade de mim, se liga? Uma nostalgia enorme de um eu que realmente nunca cheguei a conhecer, que sempre me foi tão distante. Sinto saudade da utopia que é viver, seja viver bem ou só viver, existir e ter força pra isso. O tempo anda passando cada vez mais rápido, meus medos também andam aparecendo cada vez mais e se tornando mais reais.

Pouca gente sabe, mas eu morro de medo de morrer. Acho que é a coisa do aquariano que precisa deixar um pedaço dele com o mundo, mas não sabe como, mas que ao mesmo tempo percebe que acha que já se deu demais pras pessoas e precisa se recolher por um tempo. É uma dualidade louca e feroz essa que vive na minha cabeça. Vivo pensando que sou uma entidade que jogaram aqui pra sofrer, tal qual algum prisioneiro do império romano no começo do seu império. Essa sensação de se sentir inferior a tudo, bicho, é algo que eu não recomendo a ninguém, mesmo. Você se acha burro, feio, chato e completamente desnecessário. É uma diminuição só, que eu nunca sei como lidar. Mas ai sempre vem aquela galera do “podia ser pior”

  • Macho, tu tem toda uma ajuda de custo
  • Tu vive bêbo, parece que tu tá é de senvergonhice, consegue sair de casa pra beber mas não estuda, não trabalha. Tu quer mesmo é a vida boa, de ficar deitado em casa, que eu sei.
  • Porra, man, o Zé perdeu a mãe, o pai e 10 tios e tá melhor que tu, como é que pode?

Sei lá, mano, só para. Vocês não entendem o que se passa aqui, nem eu entendo. E acho que por isso que eu nunca tentei julgar vocês, porque eu nunca entendi direito muita coisa, então porque iria usar de tal moralidade pra julgar certa coisa?

  • Porra, Matheus, mas tu tem 26 anos e vive se metendo em briga!
  • Macho, tu é muito dramático, tu parece que não quer melhorar
  • Vai estudar, fazer um concurso que tu consegue o que tu quer, menino
  • Vai rezar! É falta de Deus no coração.
  • Seu sem noção, como é que pode, tu tratou a Mariana mal e quer que eu te trate bem?

Velho, como é que tudo ficou tão difícil? Sabe solidão? Vocês todos, vocês fazem eu me sentir solitário, fazem minha cabeça se sentir cada vez mais inadequada, velha e antiquada, e ah, fazem-me pensar cada vez mais na morte, na desistência e no fim. E bicho, sempre parece que tá mais perto, sabe? Parece que eu vou estourar e acabar numa clínica sendo o “coitado, era tão inteligente e endoidou”. A culpa? Não sei de quem é exatamente, mas queria saber. Se é do meu tio, se é da minha avó, se é das pessoas que já me rodearam ou se é minha mesmo. Na dúvida, é minha. E a saudade e os medos também. Tchau.

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