Por um amplo debate programático e o fim da pesquisa eleitoral

A nossa democracia tem sido cotidianamente desgastada pelos debates políticos promovidos nas redes sociais e que giram em torno de quem seria o nosso salvador, baseado na última pesquisa eleitoral.

O Instituto Datafolha divulgou no último dia 30/04 a sua primeira pesquisa após a divulgação da delação dos ex-diretores da Odebrecht na Lava Jato. Iria preparar um texto analisando os dados em cada cenário, a nível de registro. Iria, pois fui tocado por uma postagem facebucana que dizia o quanto falar de eleições tem prejudicado o debate político nacional. Como assim estamos debatendo sobre Lula, Bolsonaro, Dória et caterva se nem chegaram a elaborar um parágrafo do seu programa? Vamos continuar acreditando em messias que não precisam apresentar qualquer projeto nacional para dedicarmos um voto?

Chega de pesquisas eleitorais!

Porém, como já estava animado com a pesquisa, irei fazer brevíssimas considerações sobre. A pesquisa completa pode ser consultada aqui. Os pontos que mais me interessam são a pesquisa espontânea e o índice de rejeição. O primeiro mostra o piso dos candidatos, enquanto o segundo o teto. Na pesquisa espontânea, Dom Sebastião aparece com 16%, Bolsonaro 7% e os demais com 1%. O pai das empreiteiras já começa a disputa com quase um 1/5 do eleitorado e mais que o dobro do segundo colocado. Isso claro, se não for condenado até o início da campanha. No índice de rejeição, Lula divide a liderança com Aécio com 45%. Dentre os presidenciáveis competitivos, Dória conta com o menor índice, demonstrando que pode decolar, assim como fez em 2016.

Depois dessa análise de botequim, vamos ao que interessa. Estamos na primeira semana de maio de 2017, ou seja, mais de um ano do processo eleitoral e os debates políticos nas redes sociais tem girado somente em torno de quem seria o melhor para o Brasil. Em nenhum momento há o debate sobre o que seria melhor. Nem poderia, afinal, nenhum dos presidenciáveis possuí um programa a apresentar neste momento.

O Datafolha já tem acompanhado a evolução dos números desde dezembro de 2015, quase três anos antes do processo. A chapa Dilma-Temer que fraudou as eleições de 2014 mal havia completado um ano de reeleição e já estávamos discutindo quem seria o próximo messias. Compreensível diante do mandato tenebroso da dupla dinâmica, porém injustificável no nível político. Se a dinâmica política tem se alterado semanalmente, como perder tempo definindo os postulantes daqui há três anos?

O debate de nomes e não de programas tem consumido nossa democracia de tal maneira, que, o eleito em 2018 poderia escrever ele próprio uma nova constituição atribuindo amplos poderes, já que, pelo nível dos debates, esse nome é o único salvador possível para o país e suas decisões não podem ser objeto de debate. #MeuMessias2018. Ame-o ou deixe-o. Na falsa polarização entre Dilma e Aécio em 2014, alguém se lembra dos programas apresentados? Não poderiam, já que não o foram. Era apenas o discurso do medo contra o do cinismo. Mas as consequências dessa disputa se apresentam até hoje.

Vai Carlos, ser gauche na vida!

Nos EUA, a vitória de Trump sobre Clinton foi precedida de prévias nos partidos dos dois candidatos. Uma ampla discussão acompanhada pelo país inteiro e que já fazia parte do processo eleitoral. Na França, também houve a realização de prévias pelo Partido Socialista — PS, também acompanhado com bastante empenho pelos entusiastas da centro-esquerda. No Brasil, há um movimento muito tímido para realização de prévias, mas que tem encontrado quase nenhum apelo por parte da sociedade. A ideia inicial era unificar o campo progressista em um programa amplamente discutido, sendo apresentado por uma chapa também previamente escolhida.

A discussão programática feita pelos partidos ainda é algo muito restrito aos seus correligionários e técnicos de determinadas áreas. Dona Maria e Seu João nunca são consultados sobre qual seriam as suas prioridades para o país. É claro que, diante da dimensão continental, uma discussão ampla e democrática exigiria uma estrutura complexa, porém, com a utilização das novas tecnologias já é possível a discussão e a elaboração de programas democráticos em tempo real.

Durante o processo eleitoral do ano passado, tive a oportunidade de participar de um projeto inovador na cidade, chamado São Gonçalo em REDE. O projeto saiu exatamente da maneira como queríamos, porém houve baixíssimo engajamento por parte da sociedade. A proposta com maior engajamento teve apenas 24 participações, bem aquém do que deveria, não só pela importância como também pelo alto custo do projeto. Infelizmente não tivemos a oportunidade de realizar um estudo dos motivos do baixo impacto. Talvez as pessoas prefiram mesmo debater sobre salvadores. Talvez não soubemos impactar da maneira correta. Enfim.

Plataforma São Gonçalo em REDE

Toda e qualquer iniciativa de elaboração de um programa político para 2018 deve ser valorizada e compartilhada. Não podemos tratar a política como o futebol. Sou botafoguense simplesmente porque gosto do time, mas não posso votar em Marina, Dória ou Chico simplesmente pelo mesmo motivo. O voto precisa deixar de ser um cheque em branco para ser um compromisso baseado em algo concreto. Precisamos avançar muito ainda nesse ponto e quanto menos falarmos em cenários eleitorais, melhor para nossa democracia.