Canibalismo

Os meus sentimentos eu crio como fossem meus filhos.

Ele é só um zigoto quando eu quero registrá-lo em cartório, e eu aperto suas membranas e faço dois buracos se logo não lhe nascem os olhos. Ele é só uma gástrula, mas é meu filho.

Eu o alimento para que cresça bem nutrido, é uma espécie de instinto, mesmo sendo eu inexperiente em criar recém-nascidos.

Sim, porque ele já nasceu. Está dentro de mim, e eu quero registrá-lo. Ele é só uma blástula, mas tem o meu sobrenome e o teu. Os olhos dele têm a cor dos seus genes, do seu afeto.

Aos meus bebês eu cuido como se fossem meus filhos, e ainda me assusto se eles criam dentes. Se eles viram uma coisa pesarosa, uma coisa assombrosa. Me assusto se eles me fazem querer regurgitar, se de repente me enojam. É assim: às vezes a gente acha que tá criando um filho e tá criando um monstro, que tem o meu sobrenome e o teu.

Esse demônio tem a cor dos seus olhos. Maldito.

Eu vou matá-lo.

Eu vou matá-lo, nem que eu tenha que arrancá-lo de dentro de mim à força. Eu vou expelir você de mim, e não vai sobrar nenhuma gota pra contar a sua história. Eu vou te tirar de letra, sílaba por sílaba e te abortar em um balde de morfemas. E um dia isso tudo que a gente viveu vão ser apenas palavras soltas por aí, que o dono do corpo das lembranças já morreu.

Eu matei seus gametas, você não sabia? Rompi com eles todinhos, antes que me matassem. Fiz picadinho e servi no jantar, eu e você não temos história. Te fiz de historieta, que conto para arrancar risos dos amigos. Eu jamais me contentaria com o papel de vítima. Às vezes a vida nos faz ingênuos — outras, nos faz assassinos.

É, eu expeli você de mim.

Aborto espontâneo.

Óbito.