O Ambiente e o Homem Intelectual

Podemos pensar em várias alusões ao mítico isolamento. De cavernas até desertos, a solidão é um dos mistérios mais sacros ao homem. Filmes sobre naufrágio, até hoje, são reproduzidos em nossa cultura ocidental e, até hoje, fazem um ar de arcano — um ar de hierofania. Por quê? Porque o medo da solidão é o mesmo medo de conviver com seu próprio eu — aprofundar-se em uma alma em que não podes julgar sem antes ser julgado. Disso resultam ou grandes homens, em um estado de clarividência intelectual inimaginável, ou loucos, que se pensam em um estado de clarividência intelectual inimaginável. A tênue linha se distingue pelo inimigo: o louco luta contra moinhos e o gênio contra gigantes. Porém, como sabemos o que é moinho e o que é gigante? — Em última análise, pela revelação.

A revelação é necessária. E é a única explicação para como o homem mantém aquela senda vital da busca pela Verdade. O esquecimento — ao contrário do que imaginam os pretensos homens da ciência atualmente, ao contrário do que pensam os apologéticos das teorias marcuseanas, liberais e comunistas, ou do avanço técnico-científico da humanidade — é um fator preponderante na história da busca pela Verdade no mundo. Bem o sabem os cristãos: a revelação é um ato contínuo na história do mistério, em que ressurge das trevas aquela fulgor agudo da face de Deus —pois, sem Deus, somos cegos.

Pensemos na história, então, em um movimento duplo: corsi e ricorsi. De quando em quando, avança e, de quando em quando, recua. Porém, qualquer avanço e recuo é relativo a uma perspectiva de progresso e de regresso, ou seja, a valores, como bem ilustrou René Guénon. Ora, a efetividade do avanço de algo deve ser baseada na proposta inicial do avanço. Logo, o ocidente só pode ser julgado pelos valores fundantes ocidentais. Sobre isso, retumbantemente, podemos julgar o ocidente em três perspectivas: pelo Bem, pelo Belo e pelo Verdadeiro.

Intelectualmente falando, o Brasil passou por uma maré-baixa de divulgação de conhecimento, um ricorsi. Entretanto, do isolamento da Verdade, ou seja, da moradia da mentira, nasceu o seu inverso — uma centelha tão forte e imponente que ameaça desvelar toda aquela escuridão inicial: como o recuo do mar que precede uma Tsunami, formam-se intelectuais orgânicos em todo o Brasil. Contudo, não se forma em padrões burocráticos: formam-se como blocos de personalidade, como personas indivisíveis, que não arredam o pé nem mesmo com todo um aparato institucional contra eles.

Julian Mariás diz, em Historia de la filosofía, que o que distingue a filosofia grega clássica das demais é sua falta de base: não havia nenhuma filosofia formal precedente a eles, e, por isso, usaram-se de mitos ou da realidade mais imediata. O Brasil, para Mário Ferreira dos Santos, era como a Grécia Clássica — um bando de bárbaros invasores verticais. Só haviam mitos externos e estrangeiros e a dura e pura realidade. Mário Ferreira foi o pai fundador da filosofia brasileira. Podemos definir, assim, a história da filosofia brasileira como pré-marianos e pós-marianos, esse último sendo nosso período atual.

Anunciamos o fim do “período clássico brasileiro”, aquele das perseguições e humilhações das quais passaram nossos fundadores, sendo que o último deles, Olavo de Carvalho, ainda vive. Entramos na geração dos liceus e da geração que irá, efetivamente, compor uma elite intelectual. Da solidão ao coletivo — do corsi ao ricorsi intelectual — o Brasil engatinha para seus dias de destaque e glória perante a Verdade.