• Reflexão – O Poder da Identidade.

Lucas 10.17–20:

Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome! Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago. Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpente e escorpiões e sobre todo poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano. Não obstante, alegrai-vos, não porque espíritos vos submetem, e sim porque vosso nome está arrolado nos céus (Ou “conhecido nos céus).

Os conceitos ocidental e oriental são adversos; esta inicia-se a partir da construção do pensamento. A maneira como pensamos definirá como nos comportaremos, pois assim a psicologia nos explica. Quando analisamos a construção social no contexto israelita, perceber-se-à que, o sucesso de um homem, se dava quando um rabino os escolhia para ser discipulado. O discipulado no contexto original, não trata-se de uma metodologia de crescimento, antes, uma vida, onde aquilo que sou será impresso no discípulo.

O Messias Yeshua, era um rabino da ordem farisaica e, como todos, formou discípulos, todavia, diferentemente de muitos, seus ensinamentos não possuíam o objetivo de uma mera aparência exterior, mas uma transformação interior; onde, a partir desta todas as coisas seriam transformadas. A metodologia rabínica de Yeshua, fugia daquilo que era comum. Seus ensinamentos não eram pautados em uma mera sabedoria humana – que é carnal, terrena e diabólica -, a sabedoria deste, excedia todo e qualquer entendimento, pois seu ensino não partia de si mesmo, afinal, aqueles que assim fazem, buscam sua própria glória; nisto consistia sua autoridade e, esta transmitia seus discípulos. A contraposição rabínica de Yeshua não se dava por seus ensinos, quando analisamos os materiais rabínicos anteriores ao Mestre, constataremos que, eram ensinamentos comuns dentro do hebraísmo; aquilo que o diferenciava era o Espírito que o dominava.

O evangelho de Lucas, antes de chegarmos no regresso, constatamos o Mestre ensinando seus discípulos como que os guiados pelo Espírito viveriam e, desafiou-os a viver desta forma. Depois de exorta-los, Ele convoca os setenta a irem de cidade em cidade a diante dele, para apregoar que é chegado o Reino dos Céus através de um domínio exercido pelo Espírito. De acordo com alguns teólogos, estes passaram sete meses indo de cidade em cidade afim de proclamar que, o Reino havia chego, afinal, seu Rei estava presente. Ao concluir a proclamação bem-sucedida deste Reino presente, retrocederam ao seu Mestre, “possuídos de grande alegria”; esta possuí um motivo válido, uma vez que, eles reconheciam que, somente através de Yeshua os domínios eram submetidos; não obstante, o Messias declara que, via, através desta proclamação do Reino, o domínio do inimigo, aquele que tenta inibir o domínio do Espírito ser destituído.

Quando analisado o presente texto, muitos intérpretes erroneamente tiram do contexto as palavras de Yeshua e, a partir disso, fundamentam a teoria do GAP – corrente teológica, onde acredita-se que entre os dois primeiros versículos do gênesis houve um intervalo e um cataclisma cósmico ocasionado pela queda do Querubim, “lúcifer” -, todavia, esta declaração – “Via Satanás caindo do céu como um relâmpago” -, deve ser interpretada a partir do contexto onde ela está inserida. Embora a frase gere em muitos estranheza, devemos voltar a cultura vigente e, entender o conceito que está envolvido; este trabalho, jamais será fácil, afinal, desconstruir uma mentalidade sempre foi um árduo serviço. Reconheço a incapacidade de transmitir com clareza aquilo que está escrito, mas, conheço que tentarei expor com destreza o presente texto.

Há um fator que devemos considerar: Existe um abismo entre o judaísmo/hebraísmo e o cristianismo histórico (Tradição). Esta discrepância dá-se através da influência do pensamento; enquanto o pensamento judaico é puramente semítico, o cristão (ou judaico-cristão) houve uma fundição com o pensamento greco-romano, através dos filósofos que “converteram-se” a esta religião. Assim, o pensamento judaico dos primeiros séculos foi-se paulatinamente infundindo-se com a filosofia grega.

O termo “satanás” no cristianismo, foi associado única e exclusivamente ao “demônio”/diabo; todavia, quando analisamos, constataremos que, a palavra hebraica שטן refere-se a um “opositor, inibidor”. Portanto, todo o texto deve ser analisado a partir do contexto para concluir que, estaria tratando-se do inimigo.

Os discípulos ocasionaram através da pregação do Reino uma destituição de um poderio que era contrário ao do Eterno, por este motivo a palavra Satanás aparece. Todo sinal ocorre com o intuito de manifestar, reconhecer ou prever. Os sinais efetuados pelos discípulos, manifestavam um reino presente; o fato de eles alegarem “em teu nome”, reflete o reconhecimento de Sua autoridade (de Yeshua) e, previam realidades que se manifestariam de maneira plena. A euforia deveria dar-se não por eles efetuarem tais milagres e, destituírem poderios, antes, por eles serem conhecidos nos céus. Afinal, por este motivo eles poderiam efetuar tudo.

Quando Yeshua declara “vossos nomes serem reconhecidos nos céus”, tratava-se de ser um ser cujo o domínio não tem origem na terra, porquanto é nascido de uma natureza celeste. A alegria consiste no estar sob o domínio do Espírito, conhecer e ser conhecido por Ele. Embora muitos desejam promover-se através de atos miraculosos e destituição de domínios, nosso Senhor nos conduz a um lugar de conhecimento, onde aquilo que faço não deve ser exaltado, porquanto é um mero reflexo de uma nova identidade que, aqueles adentraram – Yeshua.

Há diversos aspectos que nosso Senhor trabalhou com seus discípulos, todavia, o mais importante, desenvolveu neles uma identidade. Ele sabia que a identidade os conduziria a um empoderamento do espírito.