Você e seus gestos.

A moça em questão tinha trejeitos bobos que só excitavam ainda mais por conta da sua alta estatura. Esse charme de infantilidade costuma ser encontrado só nas baixas, devido ao desengonçar que a altura dá as pessoas. Era magra e sua boca era enorme. Era, em resumo, muito bonita.

Melhor do que encontrar erudição em uma mulher — já que isso é uma virtude masculina — é encontrar doçura e altruísmo em uma menina bonita. Ela me contava sobre sua dedicação em cuidar de enfermos mentais. Além dos loucos, ela também tinha zelo pelos surdos. Aprendeu a linguagem de sinais ainda muito nova. Era bonito ver aqueles braços magros se comunicarem com quem não pode mais ouvir.

Confesso! Já estava muito encantado. Eu podia ver a compaixão dela com estranhos convertida para nossos filhos. E o melhor de tudo é que uma mulher de consagrado altruísmo normalmente é desleixada nas suas qualidades sociais. Essa não. Era insolente. Abusada. Sempre tirava sarro de mim e eu podia responder no mesmo tom. Eram assim nossas brincadeiras. Ó, meus amigos, como é bom uma mulher segura. Brincávamos com comentários ríspidos um com o outro e ela não se ofendia.

Um dia combinamos de caminhar por um parque de nossa cidade. Ela não se empolgava tanto quanto eu nas atividades físicas, mas como nossas conversas eram regradas de brincadeiras que tornavam aquilo divertido tanto para mim quanto para ela, já éramos assíduos frequentadores do local. Ela no seu espírito de mulher, não parava de falar. Falava ininterruptamente e não me deixava opinar. Me zanguei e disse em tom de brincadeira:

- Você está falando demais. Está me irritando. Fale um pouco em libras.

Ela abriu os olhos e riu. Começou a gesticular. Ela apontava repetidas vezes o dedo para a palma da mão e depois para sua bochecha. Usei todos meus recursos mentais pra entender aquilo. Ela continuava a gesticular enquanto andávamos. Ela fez mais uma vez o sinal apontando para palma da mão e para seu rosto quando entramos em um lugar mais reservado do parque. Já era noite. As copas das arvores, uma de cada lado do caminho traçado, formavam um telhado ao se entrelaçarem. O local ficou mais íntimo e frio. Me contorci em espasmos e olhei pra ela mais uma vez. Continuava ali a repetir os gestos e repentinamente tive uma epifania. O apontar para palma significava “um” e na bochecha era “beijo”. Ela queria “um beijo”. Olhei pra ela e disse:

-Um beijo?

Então a agarrei. A beijei na boca e logo os lábios dela se abriram. Como era bom. Logo entrelacei minha mão naquele cabelo longo e juntei o corpo dela ao meu. Achei um muro em que eu pudesse deixa-la contra e continue a beijar. Como era bom.

Dei uma pausa para que eu pudesse respirar e ela me olhou com aquele sorriso bobo.

-Por que você fez isso?

-Ora, você não pediu um — e apontei para a mão — beijo? — agora para minha bochecha -.

-Não. Isso significa “vamos tentar”.

Que desonra caro leitor. Ela estava me respondendo sobre aquela brincadeira que fiz. Ela respondia sobre meu pedido de falar em libras. Ela respondia “Vamos tentar falar em libras”. O beijo foi recíproco, eu sei. Mas e se não fosse? E se eu tivesse roubado o beijo dela sem seu consentimento? Só de imaginar a situação eu fiquei corado. Que desonra! Fiquei vermelho e comecei a rir. Ela também. Meu desejo ficou latente porém menor. Eu estava pensando na situação em que encontrávamos agora. Paramos com nossa volúpia e voltamos a caminhar. Lampejos de risos tomavam a mim e a ela. A como era boa essa intimidade. Ela entendeu minha vergonha e agora tirava mais sarro de mim.

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