Jesus é dahora, mas você o mataria.

A imagem acima tem rodado bastante as redes sociais ultimamente. De fato, ela é em si bastante reveladora de um sentimento comum que perpassa não-cristãos no que diz respeito ao comportamento de denominações cristãs quanto à questões delicadas como homossexualidade, aborto, eutanásia e outras mais.

A ideia quase sempre contida é a de que essa figura emblemática e enigmática chamada Jesus, tratava-se de alguém que, nos dias atuais, criaria problemas e se levantaria contra a ordem religiosa a quo. Jesus seria alguém que colocaria em seus devidos lugares Malafaia’s, Feliciano’s e diversos outros supostos líderes religiosos, por suas posturas desamorosas que corroboram na marginalização de grupos minoritários na sociedade e nas igrejas.

Esse tipo de entendimento, assenta-se na certeza, de que Jesus pregava apenas o amor e não reivindicava nenhum tipo de imperativo moral em que este amor se tornaria pleno e verdadeiro. Para estes, Jesus seria um tipo de revolucionário político/hippie que não realizou quaisquer proposições a respeito de uma ordem criacional do universo, de um Deus legislador e Santo, sobre a existência do pecado e sobre algum tipo de necessidade de arrependimento e redenção do gênero humano.

A leitura feita é de que Jesus foi crucificado pelo Império Romano por motivos políticos e/ou pela força religiosa fundamentalista judaica que via nele uma ameaça ao seu status quo com seus ensinamentos subversivos.

Contudo, Jesus à semelhança do personagem “Aslan” criado por C.S. Lewis em “As Crônicas de Nárnia”, é um ser que não pode ser domesticado, ele não é propriedade de nenhuma ideologia e, tampouco, está a serviço de nossas vontades. Ele era aquele que via o mais profundo de cada um e que cada pessoa, sem exceção, que esteve em contato com ele não podia se manter indiferente. Todos em sua presença, ou se revoltavam ou o adoravam, se manter indiferente não era uma opção.

Neste sentido, Jesus não foi simplesmente entregue pelo concílio do Sinédrio Judaico, mas foi levado por uma verdadeira multidão de pessoas (Lucas 23:20–21). Ele, Jesus, despertou o ódio assassino de Herodianos e Fariseus (Marcos 3:6) que eram, guardadas as proporções, a mais pura representação de contextos “progressistas” (sendo os herodianos partidários de Herodes e da cultura greco-romana) e “conservadores” (sendo os fariseus responsáveis por guardar e manter a cultura e as tradições do povo judeu contra a invasão da cultura presente no Império Romano) em suas devidas épocas.

A passagem da mulher adúltera é uma das favoritas para a construção deste Jesus desprendido de um suposto fundamentalismo vazio de amor. De fato, ao observarmos a passagem narrado no evangelho de João em seu capítulo 8, veremos que, de fato, Jesus escancara a hipocrisia e o desamor dos líderes religiosos da época.

E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.
João 8:10,11

O trecho final do encontro de Jesus com esta mulher é lindo e diz respeito a cada um de nós. Jesus não veio nos condenar, não é do seu feitio jogar pedras e apontar dedos, mas diagnosticar doenças em nossas almas. Como um médico ético, ele não tem medo de apontar nossa doença, pois sabe quão grande prova de amor é ter a coragem de dar o diagnóstico ao paciente sobre a gravidade de seu estado. Ao dizer para a mulher ir e não pecar mais, Jesus está dizendo “Você errou, você exerceu sua sexualidade de modo errado, fora dos limites estabelecidos na criação por Deus, mas você está livre para ir, vá e não se submeta mais à isso”.

Portanto, o Jesus mostrado nos evangelhos, nos dias de hoje sem dúvidas teria muito a dizer a diversas denominações cristãs, seja repreendendo-os por sua hipocrisia e falta de amor em acolher as pessoas ao invés de jogar-lhes pedras, seja cumprimentando-as por manterem-se fiéis aos seus ensinos sobre a ordem natural das coisas no que diz respeito ao exercício da sexualidade, sobre o caráter digníssimo da vida humana, ainda que, intrauterina e outros assuntos mais.

Jesus irritaria muitos religiosos nos dias de hoje, mas muitos que o tem como um “cara legal” seriam os primeiros a gritar por sua crucificação (ainda que acreditem que não). Jesus incomoda. Ele incomoda a mim, a você e a todos, pois ele não está sujeito a ninguém, diante dele, todas as coisas estão nuas e reveladas, por isso a crença da cristandade é de que ele foi morto pela humanidade e para o resgate da humanidade, pois a humanidade seja em qual época for, o odiaria como a humanidade de dois mil anos atrás o odiou e o matou.

Se muitos religiosos o odiariam por ele desmascarar sua hipocrisia, muitos “progressistas não religiosos” odiariam-no por ele desmascarar o pecado de sua pretensa autonomia em relação ao Criador.

Jesus pode ser “dahora”, mas em nossos dias você o mataria.