Pavlov

(The Normal Heart, 2014)

Só de ouvir o som da maçaneta da porta se destravando o meu coração acelerava, pisava fundo no peito querendo sair pela boca. Antes ele costumava sair mesmo, rasgava minha garganta, isso quando não me explodia o peito, mas ele o colocava de volta.

Costumava vir até mim, onde quer que eu estivesse e trepávamos ali mesmo. Na cozinha enquanto eu preparava a janta, no banheiro enquanto eu tomava banho, na área de serviço ou quando eu estivesse fazendo qualquer coisa que fosse. Até que eu passei a me antecipar e só de ouvir o som da chave na porta eu já estava pronto, esperando-o na sala ora sentado no tapete, ora no sofá. Ele gostava de dar no tapete e eu no sofá. Costumávamos alternar, até que no sofá não deu mais e eu o esperava no tapete com o coração desenfreado e de pau duro.

E de manhã, antes do sol nascer eu já estava pronto. Não de pé, nem acordado, estava pronto, desembrulhado do lençol e do nosso enlaçado. Ele levantava e antes de sair me dava um beijo mais um bom dia. Eu acordava e costumava fazer manha, pedir mais um tempo e derrubá-lo na cama. Costumava tirar sua camisa, beijar seu pescoço e levar a minha língua pra passear no seu peito, na barriga até estacionar no seu pau, mas ele não costumava me avisar quando estava quase lá.

Então se conformava em chegar atrasado, bolava uma desculpa ao telefone para o seu chefe e me retribuía. Virava-me ao avesso e saltava com seus lábios na minha nuca, descia a boca dorso a baixo até cavar a língua no meu cu e escalar meu dorso a cima.

Até que nas manhãs seguintes ele já estava pronto antes do sol nascer e eu já estava fazendo manha. Ele acordava de pau duro e dava-me um beijo mais um bom dia, eu o retribuía sem precisar pedir mais um tempo nem tirar sua roupa.

Ele costumava me chamar de amor, e quando ele falava era como se um sino tocasse, e eu respondia. Eu salivava e costumava lamber meus dedos e me tocar por fora, por dentro e os dois ao mesmo tempo. Eu costumava pensar assim e pensava nele várias vezes ao dia. Eu pensava demais e ainda penso nele, e quando acontece meus dedos molham.

Eu costumava sempre ir longe demais, ele me disse isso, que eu já estava indo longe demais. Mas antes que ele dissesse pela última vez eu já tinha ido com outros, e ele também foi, não com outros, mas pra longe demais de mim. E hoje só de ouvir o som da maçaneta da porta o meu coração acelera.


❤ Se você gostou aperta no coraçãozinho pra dar uma força, eu agradeço demais ❤