Sinto Muito

Eu sinto muito. Sinto frios inexplicáveis no meu peito, até quando é verão e sinto calores excruciantes depois de tomar um banho de água fria. Eu sinto como se houvesse algo guardado que queima dentro de mim, que queima quando faz frio, como gelo queima. Sinto que sou gelo e que queimo por dentro, e não por fora.

Eu sinto muito, eu sinto medo. Desconheço o que sinto e tenho medo do desconhecido. E ao passo que tenho medo me sinto atraído, mas receio e receio porque tenho medo. Eu tenho medo do que eu sinto.

Eu sinto muito, sinto até demais. Sinto que é hora de partir quando me pedem para ficar, e quando eu vou, sinto saudades. Eu sinto tantas saudades que já perdi as contas das saudades que sinto. As vezes eu sinto que irei morrer de saudades, se é que é possível isso, sentir que vai morrer… mas sei que saudade é capaz de matar, eu sinto. Saudade é um aperto de dentro pra fora do peito, é como se algo quisesse sair dali a qualquer custo. A saudade dá quando a gente guarda demais as coisas no peito e tudo fica uma bagunça, como um quarto bagunçado, que por mais que a gente arrume, ele volta a bagunça que era antes. Saudade é uma bagunça enorme dentro do peito.

Saudade corta, rasga, perfura e, quando fere a saudade não estanca, jorra do peito e despenca feito cachoeira. Saudade é rio que deságua em um mar de memórias, é a parte do rio que a gente pensa que é rasa, mas que quando pisa afunda sem saber aonde vai parar. Saudade é confusa, é quando o coração tá virado ao avesso.

E eu sei de tudo isso porque eu sinto. Sinto que meu coração está ao avesso. Me sinto um peixe fora da gaiola e um passarinha que mora no aquário. Eu me sinto confuso, sozinho no meio da multidão e sinto uma multidão dentro de mim quando estou sozinho. Eu sei que é verdade porque eu sinto o barulho, eu ouço os cheiros e vejo os passos.

Eu sinto muito. Sinto dores imensuráveis, tantas, mais tantas dores. Sinto algo que me perfura, mas quando enfio o dedo na ferida não sinto nada, por o que eu sinto é um grande vazio. Eu sinto um vazio, eu sinto falta.

Eu sinto muito e sinto tudo fora de hora. Sinto sono quando deveria me sentir acordado, sinto um peso caindo no meu corpo e sinto que não posso segurá-lo. Eu me sinto fraco, sinto que não tenho a mesma força de antes. Ando desgastado e, às vezes, sinto que nem ando.

Sinto que quero chorar, mas também sinto que o tempo aqui está seco. É como se o céu tivesse só nublado e não caísse uma gota sequer. Eu sinto como se eu quisesse explodir pra poder juntar os pedaços, mas sinto que já sou um pedaço que explodiu, como se eu fosse uma colcha de retalhos. E não consigo chorar, explodir, ou fazer qualquer coisa, que não seja sentir.

Eu sinto muito e sinto que é impossível sentir tanto e, ao mesmo tempo sentir tão pouco, que é impossível sentir um vazio tão repleto de coisas, que é impossível que um vazio caiba dentro de outro, como eu. Ainda que impossível, eu sei que é de verdade, porque eu sinto isso. Eu sinto muito.

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