Leandro Karnal e as armadilhas do mito da neutralidade

Leandro Karnal foi do céu de um intelectual midiático popstar que derrubou os muros da academia e penetrou o imaginário popular para o inferno astral das redes sociais e de um julgamento possivelmente dramático mas compreensível por parte de diversos de seus seguidores.


Centenas destes desertaram ao ver uma postagem com a foto que reunia Karnal e o famigerado juiz popstar Sergio Moro, o homem com noções peculiares sobre o direito que fariam um Mussolini vibrar. Ainda mais insidiosa era a legenda da foto que, em uma ironia diabólica, descrevia o quão bom era estar na companhia de “gente inteligente”.

Entretanto os que ainda tentaram ponderar a “mancada” de Karnal acabaram por desistir do mesmo, incluindo este que vos escreve, quando ele deu uma entrevista para as infames páginas amarelas da Veja soluçando lágrimas de crocodilo sobre supostas ameaças de morte que teria recebido a partir do episódio. Esquecendo de seu mantra de ser avidamente contra a generalização, ele acabou por colaborar com o tipo preferido de alvo da revista golpista, que traça com a precisão acurada do canalha: o esquerdopata.

Em um primeiro momento nosso nobre historiador, que não perde a oportunidade de se dizer não-marxista em nome da isenção – talvez uma aulinha de primeiro semestre de Weber o ajudasse nessa questão -, se mostrou impávido frente as cruéis acusações. Porém, como é comum ao reino das celebridades, uma capitulação que o qualificaria para o trabalho das consultorias de relações públicas o levou a apagar a foto em um caso clássico de “desculpe se ofendi alguém”. Agora Karnal admite que foi um erro. No caso de uma celebridade, que é sponsor de algum produto e que não pode alienar seus público haja vista que alguém vai perder dinheiro com isso, até se entende quando os assessores tomam as rédeas. Porém, no caso de um pensador com colunas em jornais de grande circulação e um “minutinho” na Bandeirantes, não se espera uma atitude absolutamente protecionista e covarde como esta. Seja lá o que Karnal quis com esta foto, ele deveria ter aguentado o rojão e mantido sua posição inicial.

Agora, o pensador pop está autorizado para começar a contribuir na cruzada preferida da intelligentsia direitista brasileira: demonstrar para o povo a sanha terrivelmente ditatorial e violenta da esquerda. O triste relato de Leandro com o drama das ameaças de morte é mais uma punhalada nesta tenebrosa organização criminosa que não aceita a pluralidade de ideias e o debate. Se há algo em que a direita brasileira, com seus Bolsonaros e suas putas finas como Diogo Mainardi, possui know how é a defesa da pluralidade. Ah, isto e fazer cruzadas contra pobres em aeroportos, a teleologia da filosofia de seu amigo Pondé.

Fama e intelectualidade não se coadunam. A primeira é a arte de dar aos outros aquilo que eles desejam. A segunda, muito pelo contrário, é a missão mefistofélica de atacar impiedosamente o senso comum e retirar as pessoas desta zona gris a fim de instigar nelas a necessidade por uma maioridade do pensamento. Isto irrita, aliena e divide. As pessoas ficam bravas pois o que o intelectual golpeia é o esteio de suas visões de mundo e mais: suas ferramentas de criação de significados que se sustentam no que já está dado como absoluto e intocável.

Karnal não golpeia o senso comum; ele o dora, o acalenta de forma com que o espectador ou leitor não sinta sua convicção ser abalada. É como se ele o convidasse para refletir sobre o assunto proposto mas nunca, sob hipótese alguma, dando sua própria opinião sob a premissa de não querer influenciar seu interlocutor. Até mesmo se assumir de esquerda moderada democrata ele não foi capaz. Entretanto, o desejado saldo disso é uma palestra falando mal do governo Temer e o fato de colocar a saúde econômica do setor privado acima dos interesses públicos e, no dia seguinte, um curso ministrado na faculdade privada PUC-RS para uma business school. Vê-se claramente o ensejo de sua famosa criptografia ideológica quando em sua coluna ou na televisão, de modo com que se solta um pouco mais para cada lado do espectro político dependendo do lugar onde está.

Entretanto, uma foto com Moro é percebida pela maioria de seu público, de esquerda, como uma confissão não de ser de direita mas desta impossibilidade de assumir uma opinião firme e crítica sob a pena de não ser o amigão de todo mundo. Apesar de isto ter permeado toda a carreira de Karnal, estes últimos episódios fizeram ainda mais evidente a patente neutralidade calculada do historiador. É nesse contexto que Karnal declara que o leitor da Veja é um burro irremediável, depois volta atrás para dar uma entrevista absolutamente ao sabor da casa para a revista e dizer que estava errado em generalizar quando fez o comentário. Não há uma única posição do pensador popstar que não esteja ameaçada de revisão; não por ter ponderado e mudado de opinião mas por seja lá qual o ganho que isto pode oferecer para sua carreira. Se ontem a platéia explodia em efusão quando o palestrante. discursava sobre os defeitos de Michel Temer, frente a alunos de classe média alta possivelmente eivados do credo reacionário o professor vai, em nome da polidez, se abster de fazer os mesmos comentários. Da polidez e do cachê.

Feuerbach, Nietzsche, Socrates, Heráclito… separados por eras, estes pensadores sabiam que o amor à sabedoria depende de um abandono de uma dimensão mundana dos ganhos e perdas das paixões. Nunca o conhecimento deveria ser admoestado pelo escrutínio falacioso das massas que mais o queriam como muleta para suas próprias imperfeições do que como uma fonte segura de produção de saber humano. O inimigo da sabedoria, o senso comum filho da doxa aristotélica, é sua fundamental antinomia irresolúvel. Onde existe senso comum, o saber está absolutamente comprometido. É a filosofia ao sabor do mercado, um dos piores tiranos paridos no seio das construções humanas. Ela vende o que as pessoas desejam ouvir e desagua no rio turvo e fétido da auto-ajuda (que um dia Karnal, agora autor máximo do estilo, já criticou).

Infelizmente, um pensador erudito e de boa prosa como Leandro Karnal esqueceu dos conselhos de seus predecessores e caiu na vala comum da paixão, a paixão pelo reconhecimento e pela fama. Neste sentido, ele passa a ser o interlocutor do senso comum, um retórico que sabe ler suas audiências e trabalha de forma a não confronta-las a fim de manter sua condição de falsa neutralidade. As mentes mais brilhantes desta nossa espécie nunca conseguiram atingir esta verdadeira neutralidade e passaram a compreendê-la como um armadilha que constantemente era usada contra os mesmos. Não seria Leandro Karnal que atingiria este estado nirvânico de consciência. Não mesmo.