American Hustle (2013)

No more fake bullshit


Pra quem vem de recentes experiências prévias com David O. Russell, sabe que o diretor tem feito nome nos últimos cinco anos. Em 2010, ele juntou Mark Wahlberg e Christian Bale como dois irmãos num drama biográfico, O Vencedor, que conta a história do primeiro como um atual pugilista, e do segundo como ex-pugilista e treinador do irmão mais novo. Bale, impressionante como sempre, repetiu a dose de perda de massa corpórea, como já havia feito em O Operário (2004) e O Sobrevivente (2006), e encara um personagem problemático, viciado em drogas, especialmente em crack, que aparentemente acabou com sua carreira nos ringues. Mais recentemente, em 2012, David O. Russell trouxe ao mundo o seu O Lado Bom da Vida, protagonizado por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, dois queridinhos do cinema norte-americano, quiçá do cinema mundial. O filme teve demasiada propaganda e suas indicações no Oscar só fizeram alavancar sua venda, como filme e como produto. Não obstante, foi em 2013, ou agora mesmo, em 2014, quando American Hustle chegou em alguns cinemas, que David O. Russell alcançou outro nível. No more fake bullshit.


Vendido como um filme do Scorsese, American Hustle, traduzido como Trapaça, já traz uma grande carga em cima de si depois que uma afirmação do tipo é feita. Primeiro vi essa declaração em algumas headlines de críticas na internet, também escutei de uma pessoa que sentou do meu lado no cinema, mas será que seria mais um detalhe que as pessoas costumam repetir, como a quase clássica máxima de que “o melhor filme feito em 3D é A Invenção de Hugo Cabret”, que também é um filme do Scorsese. Parece um filme do Scorsese? Sim e não.

American Hustle, antes mesmo de começar, já traz um aspect ratio diferenciado, e avisa os expectadores de que o que eles vão ver foi, de certa forma, baseado em fatos reais. O primeiro indício de um estilo Scorsesiano é o ritmo do filme, sempre bem acelerado, mas não tão frenético como seu contemporâneo, O Lobo de Wall Street (2013). Essa narração/edição rápida é uma das primeiras coisas que se dá pra captar, é evidente. Depois disso, David O. Russell decide colocar voice-over nas personagens de Christian Bale e Amy Adams, e mais tarde também na de Bradley Cooper, algo que me intrigou, pois se bem me lembro, Scorsese nunca fez nem faria isso, esse tipo de narração ocorre exclusivamente para uma única personagem, é só lembrar de Ray Liotta em Goodfellas (1990) e Robert De Niro em Casino (1995), por exemplo. Talvez eu esteja cometendo um deslize, por uma falha na memória, mas esse aspecto do filme já me fez colocar em xeque a comparação O. Russel/Scorsese. E sim, mesmo que Scorsese tivesse colocado um voice-over para duas personagens, duvido que elas estariam “conversando” entre si em suas divagações, como acontece em American Hustle.

Com um ritmo rápido, vários voice-over no inicio do filme, David O. Russel faz uso também do flashback, outra característica narrativa que acresce no filme, e que também é algo explorado por Scorsese. Para voltar na infância de Irving (Christian Bale), o diretor retrocede a narrativa e insere um voice-over, nada mais típico para acreditarmos e visualizar o background da personagem. O filme fica num vai-e-vem até mais ou menos a sua primeira hora de duração, algo que não compromete a narrativa, nem tira o foco do que realmente vai acontecer. Quando disse que David O. Russell chegou em outro nível com American Hustle foi por causa da sua ousada e dinâmica linguagem de câmera, o que também lembra muito de Scorsese. Uma das marcas registradas de David O. Russell é o uso da câmera de mão, e vemos isso no filme, embora Scorsese seja mais adepto da steadicam; mas isso não impede O. Russell de fluir entre os personagens de maneira livre e espontânea, é espantoso. O diretor usa excessivos zoom-ins finalizando em closes nos rostos das personagens, algo que lembra bastante do que foi feito por Baz Luhrmann em The Great Gatsby (2013), e que pessoalmente me chateia bastante; paradoxalmente, O. Russell joga vários zoom-outs, não tão excessivos como os zoom-ins, mas talvez por causa da carga de significado que cada um dá. Há também jogadas com a câmera em que O. Russel transita entre as direções, movimentando a câmera de um dos lados, ou esquerda ou direita, para o centro, ou debaixo para cima/centro, geralmente para focar na personagem ou objeto em detalhe na cena. O. Russell varia entre os mais diversos planos, mas foca mais entre o plano americano e o close-up, ele também rouba de Tarantino duas coisas: o plano porta-malas (quando Carmine presenteia Irving com um microondas) e a câmera vagando pelas personagens quando elas se encontram sentadas a mesa.

Bale, Cooper, Adams, Renner e Lawrence.

As atuações estão magníficas, Christian Bale como sempre dá um show. Sendo sempre capaz de perder (muito!) peso, dessa vez Bale ganhou peso, e sua barriga é patente durante o filme. Além da barriga, é cômico o modo com o qual o ator/personagem se relaciona com seu tufo de cabelo falso. Bale, que faz Irving Rosenfeld, é o trapaceiro master do grupo, que encontra Sydney (Amy Adams) e se apaixona por ela, ambos são loucos por Duke Ellington. A personagem de Sydney (que como farsária traz um sotaque britânico, e que se autobatiza como Edith) forma o terceiro lado do triângulo amoroso entre Irving e Rosalyn, feita pela mais que linda Jennifer Lawrence, que pouco aparece, mas rouba a cena em alguns momentos. O grupo fica completo quando Bradley Cooper entra em cena, sua personagem, Richie DiMasio, muda toda a história e dá uma guinada na narrativa. Para completar, David O. Russell adiciona Jeremy Renner, que faz o prefeito de Camden, Nova Jersey, Carmine Polito, que como um nova-iorquino traz um sotaque parecidíssimo com o que o Joe Pesci usa nos filmes com Scorsese, só que Renner perde esse sotaque no decorrer do filme (como assim?). O filme também traz uma breve aparição de Robert De Niro, como um grande e perigoso mafioso. Um elenco carimbado já nos filmes de David O. Russell, Bale esteve em O Vencedor, assim como Lawrence, Cooper e De Niro estiveram juntos em O Lado Bom da Vida. Ter atores garantidos é uma das marcas de Scorsese, como os consagrados Robert De Niro (e por que não Joe Pesci também?) e Leonardo Di Caprio. Em American Hustle, o protagonista é Bale, mas isso não é forçado em momento algum, as personagens dele, de Adams e Cooper são bem equilibradas, bem divididas, cada uma contribui significantemente para o filme num todo.

O som, em American Hustle, é curioso também, ou a falta dele, de certo modo. Destaque para duas cenas em que qualquer música ou som sai, temos apenas as personagens falando ou, no caso dessas cenas, discutindo. Quando Rosalyn (Lawrence) e Sydney (Adams) tem seu primeiro atrito, discutem calorosamente sobre Irving (Bale) e quem ama quem, nesse momento é como se tivesse um vácuo, só se escuta a voz das duas, como se isso aumentasse a tensão da cena, e aumenta. Fato curioso na cena é que ela acaba com um beijo de Rosalyn em Sydney, ideia de Amy Adams para a cena, que não estava no roteiro, algo que David O. Russell tenta ao máximo descartar, preferindo sempre o improviso dos atores. Outro momento-chave é quando Ritchie (Cooper) chega e entra no apartamento de Sydney, quando ele se declara pra ela e diz que aquele é o momento de eles finalmente ficarem juntos, a tensão entre os dois aumenta, e consequentemente, desde o começo, não se tem nenhum som exterior. No mais, a trilha sonora, diferentemente do gosto de Scorsese, tem pouco rock, mas traz o jazz de Duke Ellington e até mesmo uma música soul tipo anos 80 quando Sydney e Ritchie vão pra discoteca. Em um momento do filme, tive a impressão de tocar White Rabbit, do Jefferson Airplane, só que numa versão árabe (?!). Assim como Scorsese, O. Russell usa música diegética, mas soa um tanto falsa.

American Hustle traz uma boa trama, um figurino condizente, bons atores e uma direção excepcional, como se David O. Russell finalmente estivesse acertando de mão cheia, e com esse filme, “as pessoas acreditam no que elas querem acreditar”, e O. Russell, assim como o cara que fez o fake de Rembrandt, é tão bom que é real. No more fake bullshit.

Belém, 11 de fevereiro de 2014

M. B. Massias

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