Children of Men (2006)

ou: Alfonso Cuarón, um dos filhos da esperança do cinema


A teoria dos autores foi lançada em 1954, proclamada mais vezes por François Truffaut, influente crítico da revista Cahiers du Cinéma, e mais tarde influente diretor francês da Nouvelle Vague, mas sendo discutida desde a década de 40 por críticos de filmes como André Bazin, o qual Truffaut era pupilo. Truffaut e outros amigos da revista advogavam uma ideia de que um filme é aquilo que é por causa da visão do diretor, de suas impressões, de suas perspectivas; o diretor de filmes deveria, a partir de então, elaborar roteiros também, a fim de minimizar a função do roteirista e estampar mais suas ideias e visões. No mais, diretores podem exercer sua marca como autores através da mise en scène, iluminação, linguagem de câmera, edição, entre outros. Autores autênticos, para os críticos da revista, eram Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Jean Renoir, Max Ophüls, Robert Bresson, entre outros.

É importante ressaltar, no entanto, que a ideia de teoria só foi lançada a partir da década de 60, pelo crítico norte-americano Andrew Sarris, que cunhou o termo Auteur theory em um ensaio intitulado Notes on the Author Theory in 1962. Na edição de número 70 da Cahiers du Cinéma, Bazin escreveu o artigo De la politique des auteurs, e há também a influência do termo caméra-stylo, de Alexandre Astruc. A grande contribuição de Truffaut vem de seu ensaio, Une certaine tendance du cinéma français, onde ele cunha o termo a política dos autores.

Pois bem, Cuarón é um dos maiores auteurs do nosso tempo. Embora eu só tenha visto metade dos filmes do diretor mexicano, tenho extrema convicção do que acabo de afirmar. O filme que tratarei em questão é Children of Men (2006), traduzido como Filhos da Esperança, uma adaptação literária, onde Cuarón contribuiu não somente no roteiro, mas na edição, e principalmente, dirigiu o filme.


Contém spoilers

Uma das coisas que fogem do controle de Cuarón, mas que torna o filme incrível é a sua história, sua trama. Ambientado numa Inglaterra futurista, no ano de 2027, o filme nos mostra um mundo distópico, mergulhado em problemas como infertilidade e imigração; Children of Men começa com a morte do Bebê Diego, a pessoa mais nova do mundo, que acaba de morrer aos 18 anos, sua morte é chorada por milhões de pessoas ao redor do mundo. A ideia da infertilidade, de início, não parece tão assustadora, mas a carga que a ideia de não poder ter mais filhos traz é assustadora, é um mundo diferente, que não tem mais as vozes, nem o barulho das crianças. E é, a partir disso, que o filme se constrói e se desenvolve, ele mostra a tragetória de Theo Faron (Clive Owen), um ex-ativista que é, de certa forma, convocado para ajudar Kee (Clare-Hope Ashitey) que está grávida.

A escolha do elenco também é maravilhosa, a escolha de Clive Owen nos mostra bem mais do que um rosto bonitinho, além de Julianne Moore, que faz Julian, ex-mulher de Theo, e que continua na ativa no que tange as lutas sociais. A convocação de Michael Caine é importantíssima também, Caine faz um cartunista renomado e que visualmente dá um ar mais pacífico ao filme, que é imerso em um mundo hostil e inseguro, a personagem dele, Jasper, ajuda Theo e os demais. Chiwetel Ejiofor também entra no time, fazendo a personagem Luke, que assume o controle depois da morte de Julian; além de Pam Ferris, no papel de Miriam, uma das protetoras de Kee, que é vivida por Clare-Hope Ashitey, completando de forma bem forte o elenco.

Toda essa ambientação futurista e distópica, com ruas sujas e paredes pichadas, o reflexo da violência e da intolerância na cidade, a divisão da cidade de Londres e a parte que é conferida aos imigrantes, é feita por um trabalho incrível de direção de arte, que é forte tanto nas partes sujas e “feias” do filme, como nas partes limpas e belas. Quando Theo vai até seu primo Nigel (Danny Huston) para lhe pedir ajuda, vemos na parede da sala de refeições o quadro Guernica, de Pablo Picasso, que representa o horror e o massacre realizado em Guernica, a capital basca da Espanha, que foi bombardeada pelo General Francisco Franco, com a estimativa de 1600 civis mortos.

Guernica.
Guernica e Theo.

Na mesma cena, também vemos uma referência a Animals, disco de 1977 da banda inglesa Pink Floyd, que é um retrato lírico crítico de Roger Waters a regimes totalitários, além de ser uma forma de intertextualidade com Animal Farm, de George Orwell.

Porco, Theo e Nigel.
Animals, disco da banda inglesa Pink Floyd.

Guernica aparece novamente ilustrando a parede do túnel em que Theo e Kee fogem:

Fuga e Guernica.

Junto com o trabalho de direção de arte, é importante ressaltar o trabalho primoroso de fotografia de Emmanuel Lubezki (que também executaria anos mais tarde de forma excepcional sua função em Gravidade, junto com Cuarón), cujo Instagram eu descobri recentemente e pode ser visto aqui. É impressionante como a fotografia de Lubezki é ao mesmo tempo fria, com um tom azulado, e cheia de morte, o que passa um ar tenso e sombrio ao filme, de que o lugar em questão não é seguro em nenhum momento. Lubezki também usa de forma magistral a iluminação ambiente para compôr a mise en scène junto com Cuarón, destaque para essas três cenas:

Julian sequestra Theo.

Theo é sequestrado por um grupo homens, que o levam para Julian (Moore), sua ex-mulher, que o apresenta um problema e lhe pede ajuda. A instalação de um refletor atrás de Julian nos mostra sua pessoa, que é visualizada pela primeira vez através dessa ótica amarelada.

Theo e Kee: parto.

Uma das cenas redentoras do filme é quando Kee dá a luz. E é, também, quando o ambiente é composto por apenas uma fonte de luz, a do lampião.

Kee e Theo fugindo.

A frieza do mundo exterior é patente, a fotografia de Lubezki nos deixa isso bem claro.

Esperança.

O simbolismo e a mensagem visual que o filme passa também não pode passar despercebido, dou destaque para no mínimo três cenas:

A primeira, quando Theo está no carro junto com Julian, Luke, Miriam e Kee, Miriam começa a descascar uma laranja, e laranjas, em filme, geralmente simbolizam que algo ruim está para acontecer (alguém lembrou d’O Poderoso Chefão?), e acontece:

Laranja e desgraça.

A gravidez de Kee também é algo curioso, quando Theo descobre que ela está grávida isso acontece num celeiro, com vários animais por perto, provavelmente algo aludindo a manjedoura de Jesus Cristo (curiosamente o nome de Theo é um afixo grego que significa Deus), e Kee também brinca que teve o filho, mas que é virgem ainda:

Kee grávida.

Outra referência, mais verbal que visual é quando a personagem de Caine e Ferris proclamam a palavra shantih, que do sânscrito significa paz, descanso, calma, tranquilidade, felicidade. A palavra shantih, se repetida três vezes, é uma referência intertextual direta de The Waste Land (1922), do poeta norte-americano T. S. Eliot, que retrata um mundo infértil e caótico do pós-guerra.

Depois que todos os créditos passam:

A direção de Cuarón é magistral, fica evidente a maestria com que o diretor executa os planos-sequência, desde o início do filme, quando a bomba explode no café, até quando a personagem de Theo se encontra em fogo cruzado para salvar Kee e seu bebê. Mas, antes de chega nesse quesito, uma das coisas que me chamou atenção foi como o diretor, ou melhor, o auteur, executou um específico shot-reverse-shot, sendo ele a prova da hiperatividade da câmera de Cuarón, de sua linguagem. Quando Theo está na casa de Jasper (Caine), os dois conversam e Jasper oferece a Theo um baseado, que ao tossir tem gosto de morango.

Close nos pés.

A cena começa com um close nos pés de Theo, e por que não em Quietus também, que mais tarde se descobre ser um kit suicida. Depois disso, a câmera está atrás de Theo, e mostra Jasper acendendo o baseado.

Câmera atrás de Theo.
Theo experimenta.

Jasper passa o baseado para Theo, e a partir disso começam os shots-reverse-shots, que mudam e se aproximam de acordo com a natureza da cena de Cuarón:

Theo.
Jasper.
Theo tossindo.
Câmera atrás de Theo, mais um vez.

Depois do plano médio em que só Theo está enquadrado, a câmera volta para trás de Theo, como se recompusesse a cena, e a partir daí ela avança de novo, em direção a Jasper, que vai contar uma piada:

Avançando, mostrando apenas os pés de Theo e Jasper.
Theo encostado no sofá.

Mais um shot-reverse, agora em Theo, que se acomoda e para para escutar a piada de Jasper. A câmera parece um pouco mais longe dele.

No próximo quadro, quem está é Jasper, e a câmera também se encontra mais próxima dele:

Infertilidade e cegonhas.

Voltando para os planos-sequências, já o temos bem no início do filme, mas os grandes destaques talvez sejam no interior carro, quando são perseguidos, onde a câmera só para quando o carro vai embora e mostra os policias alvejados no chão. É impressionante ver como a câmera transita pelas personagens, de forma (in)discreta, mas posicionada de forma que possa capturar todos:

Luke, Julian, Theo, Miriam e Kee.
http://www.youtube.com/watch?v=QfBSncUspBk

O outro destaque é próximo ao final do filme, quando a revolta está acontecendo e Theo tenta fugir e salvar Kee e o bebê. O trabalho com a Steadicam é fundamental e muito bom:

http://www.youtube.com/watch?v=twcKoAQ7HIg

Cuarón afirma que o uso de long takes foi para dar ao filme um aspecto de tempo real e um estilo-documentário, e Clive Owen declara que o uso deles demanda muitos ensaios da cena em questão. Embora eu afirme que Cuarón seja um auteur e muito do que vemos em Children of Men seja graças a ele, eu não desmereço em momento algum o trabalho de fotografia, de efeitos especiais, da equipe de dublês, etc., pelo contrário, eles são fundamentais também para o filme, como esse vídeo, como um resumo dos planos-sequência, mostra:

http://www.youtube.com/watch?v=cBfsJ7K1VNk

Children of Men e Alfonso Cuarón são, sem dúvida alguma, uma das apostas e salvações do cinema, a outorga e ratificação da política dos auteurs no século XXI. Para quem acompanhou a saga do bruxo Harry Potter no cinema, deve lembrar que foi Cuarón o diretor da terceira parte das aventuras de Potter, em O Prisioneiro de Azkaban, que é bem diferente dos dois filmes anteriores, dirigidos por Chris Columbus. Mais recentemente, em 2013, Cuarón trouxe ao mundo Gravidade, filme expetacular no que tange um filme feito no espaço. Alfonso Cuarón é, sem dúvida, a resposta para o amanhã.

Cuarón e o mundo de amanhã, a promessa de um novo e melhor cinema.

Belém, 25 de fevereiro de 2014

M. B. Massias

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