O mundo cinza de “Eu, Daniel Blake”

No filme mais recente de Ken Loach, uma lata de tinta spray serve como o último recurso na luta contra a desumanização.

Graffiti em Pompeia. Smithsonian Mag.

O graffiti, em sua encarnação original na Roma Antiga, não era arte ou vandalismo. O graffiti era algo corriqueiro, um ato de comunicação tão banal quando a própria fala. O uso moderno da expressão graffiti vem da palavra italiana “graffito”, que significa rabisco. Foi usada pela primeira vez muito tempo depois do Império Romano, pelos arqueólogos que encontraram esse tipo de registro nas paredes de Pompeia.

Na Roma Antiga, esse tipo de expressão não tinha nome, tamanha era sua trivialidade. É importante ressaltar que o graffiti romano não é análogo ao graffiti contemporâneo, uma forma de arte urbana bastante prestigiada nos mercados especializados. A arte dos grafiteiros, hoje, movimenta milhões de dólares todos os anos. Se buscássemos uma expressão análoga ao graffiti romano hoje, encontraríamos a pixação — com a mesma quantidade de referências a políticos, celebridades e instituições.

No graffiti clássico, é possível encontrar frases do tipo:

Floronnius, soldado privilegiado da sétima legião, esteve aqui. As mulheres não souberam de sua presença. Apenas seis mulheres souberam, o que é muito pouco para um garanhão desses”.

Essa é uma inscrição real encontrada em Pompeia. Aqui se vê não uma expressão artística, mas uma afirmação de identidade. A partir dessa frase, temos uma ligeira noção de quem pode ter sido Floronnius. Um homem que prezava a virilidade. Um homem de orgulho guerreiro fortemente associado ao sexo.

Ainda hoje, como também naquela época, é possível se ter uma noção bastante precisa da vida política, cultural e social de qualquer lugar quando observamos uma parede toda pixada. Na São Paulo contemporânea, por exemplo, os paredões cobertos de tinta cinza tomados por pixações de “doria doria doria” ad infinitum dizem bem mais a respeito dos conflitos experimentados pela cidade do que qualquer desenho que existiu ali até então ou do que a própria tinta cinza utilizada pela prefeitura para cobri-los.

Funcionário da Prefeitura de SP apaga pixo com nome do prefeito João Doria. Fernando Cavalcanti para o EL PAÍS.

“Eu, Daniel Blake”, filme mais recente do diretor Ken Loach, tem como clímax a seguinte cena:

O protagonista Daniel Blake, um homem doente incapacitado para trabalhar, porém forçado a procurar emprego, caminha até a sede de um dos órgãos públicos que representa o sistema burocrático impedindo-o de viver com dignidade esse período difícil de sua vida.

É um sistema que o mantém em perpétuo estado de desamparo e confusão, dando voltas e voltas em procedimentos cada vez mais confusos envolvendo formulários, peritos e orientações sobre curricula vitae feitos em computador. Todas essas sequências ocupam a primeira parte do filme e demonstram fascínio e horror diante dos mecanismos absurdos, híbridos de ouroboros burocrático e corredor polonês psicológico.

Nesse ponto do filme, Blake está cansado. Diante da parede cinza, ele tira do bolso uma lata de spray e escreve:

Eu, Daniel Blake, exijo uma data para meu apelo antes que eu morra de fome — e troquem a música de merda no telefone”.

Sabemos que ele se refere à música de espera que é condenado a ouvir todas as vezes em que liga para o departamento responsável por seu seguro-desemprego, ou auxílio por invalidez.

Ele termina de escrever e fica parado em frente à sua reivindicação, sob o olhar curioso dos transeuntes. Daniel Blake espera que seu ato seja visto pelos responsáveis e que faça com que sua exigência seja atendida. Durante algum tempo, essa hipótese até parece possível.

No entanto, somos lembrados que Daniel vive em um Estado que condena a prática de se expressar no espaço público. Após concluir sua crítica à detestável interpretação monofônica de música clássica, uma viatura policial o conduz à delegacia mais próxima.

Pixar paredes é vandalismo, dizem eles.

Ato próprio dos vândalos, não coincidentemente uma tribo germânica que desafiou Roma. Mas Roma, como dito anteriormente, não se importava com esse tipo de coisa. A pixação, portanto, não é um vandalismo verdadeiro, como a pilhagem por exemplo. É uma forma rudimentar de democracia e uma herança dos romanos, bem como o sistema político que agora dificulta a vida de Daniel Blake.

Mesmo que os romanos antigos vivessem sob o jugo do Imperador, o patrimônio público pertencia ao povo. E, justamente por ser considerado um espaço público, era também um grande mural onde todas as classes sociais poderiam deixar suas marcas, fossem essas uma frase vulgar, um anúncio político ou um desenho de qualquer espécie.

No mundo de Daniel Blake, o patrimônio público pertence ao Estado, que não é a coisa pública, mas o setor mais alto da sociedade, responsável por todas as leis e procedimentos. No mundo de Daniel Blake, sua pixação é, essencialmente, romana. Nesse caso, é ao próprio Estado que cabe a iniciativa de vandalizar a vida de seus súditos.

Ao usar a tinta spray, é como se Daniel readquirisse temporariamente sua voz. É importante observar a maneira como ele organiza as palavras para alcançar esse fim, pois não basta apenas escrever “Eu exijo…” ou “Daniel Blake exige”, mas “Eu, Daniel Blake, exijo…”. Enquanto o soldado Floronnius buscava atribuir certa fama a seu nome num parágrafo devidamente escrito em terceira pessoa, Daniel justapõe o “eu” e seu próprio nome, afirmando-se primeiro como indivíduo e depois como cidadão.

Dave Johns em cena de “Eu, Daniel Blake”.

O mundo de Daniel Blake não permite a ele que exerça sua cidadania da maneira como bem entende. Esse mundo não respeita a humanidade de Blake, nem ao menos seu estado de saúde. A indiferença do Estado é mascarada por formulários e encoberta pela atenção minuciosa aos detalhes procedimentais. A Blake só é permitido se declarar um cidadão (e humano, principalmente) depois de estar morto, dentro de um caixão num funeral paupérrimo.

Pelo menos a morte ainda é igualitária. Quando Daniel morre, é possível afirmar com certeza que algum dia viveu. Suas últimas palavras, um discurso passional em que ele exige mais uma vez o direito de viver com dignidade, são lidas junto ao cadáver por uma jovem mãe prostituída diante de uma plateia minguada.

O conflito apresentado aqui é o de um cidadão comum buscando espaço para satisfazer suas necessidades em meio a forças que regem um Estado corrompido de dentro para fora. No entanto, essa não é a história de Daniel Blake. Se dependesse do próprio personagem, sua vida não seria contada dessa maneira e não se resumiria aos formulários preenchidos e entregues em repartições do serviço público em Newcastle. A história de Blake é a de um homem comum. Um trabalhador viúvo cuja vida foi tão banal e igualmente fascinante quanto milhões de vidas mundo afora. Essa é uma história de narrativas arbitrárias impostas pelo Estado a cada um de nós.

Daniel Blake não quer ser visto como “indivíduo” ou “cidadão”. Afinal de contas, o primeiro termo é um elemento inextricável da mesma mitologia neoliberal que assola o serviço público e o segundo também encontra viés político, uma palavra burocrática e niveladora. Ele só quer ser visto como um ser humano e recuperar o mínimo de sua dignidade. No entanto, o que Loach parece propor aqui não é um discurso derrotista acerca da impossibilidade de resistência. Ao apresentar os aspectos mais cruéis do sistema público de atendimento ao trabalhador, é como se estivesse convocando cada um de nós a agir de modo que a morte de Daniel Blake não tenha sido em vão.

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