Submissão e confronto: uma noite com o Body/Head

Fonte: Instagram SESC Pinheiros

Ao assistir pela primeira vez à apresentação de um grande artista, o fã de música é colocado numa encruzilhada de sentimentos contraditórios: um em relação ao artista; outro em relação à música. O primeiro desses sentimentos é objetivo e instintivo, é aquele frio que toma conta da barriga quando vemos aquele alguém, o objeto de nossa admiração, a poucos metros de distância. Por alguns segundos, os segundos mais breves do espetáculo, o artista pertence à audiência, que lava o auditório de aplausos e gritos. Assim que a música começa, somos provocados a reagir emocionalmente, uma reação que pode ou não divergir de nossa reação primária à visão do artista.

Quando Kim Gordon sobe ao palco na noite de sexta-feira, tem plena consciência dessa dualidade. Ela sabe que estamos todos muito felizes ao vê-la. Órfãos do Sonic Youth vestindo camiseta do Washing Machine. Intelectuais cosmopolitas. Ativistas de direitos femininos. Poetas. Músicos de jazz. É bem provável que algumas dessas pessoas ainda não tenham ouvido sequer uma faixa do Body/Head, projeto de Gordon ao lado do guitarrista Bill Nace. O fato é que estamos todos felizes de vê-la subir ao palco em passos firmes de sapato de salto, o vestido negro com lantejoulas refletindo as luzes dos holofotes.

Estamos todos felizes e depois ficamos em silêncio, como que sinalizando nossa submissão a seus misteriosos desígnios. A partir daí, Kim Gordon nos domina. O que havia daquela sensação anterior, de nossa felicidade ao vê-la, é paulatinamente destroçado pelo som das guitarras e das palavras rancorosas que escapam de sua garganta aos gritos. Pois Kim Gordon não quer que fiquemos felizes ao longo da próxima hora. Pois a música do Body/Head trabalha um tipo diferente de catarse. Alguns de nós continuam a falar, gritam em direção ao palco. Não é fácil aceitar a submissão.

O Body/Head lançou alguns EPs entre 2011 e 2012. Depois um álbum cheio em 2013. A sonoridade do projeto foi estabelecida nas primeiras gravações e é bastante espartana, consistindo na voz de Gordon sobre as duas guitarras, que ora improvisam, ora ficam presas em um quase riff pulsante.

“Coming Apart” (em português, “Separando-se”; “Caindo aos pedaços”), o álbum de 2013, foi produzido em estúdio profissional e é uma amostra incrível de como a mixagem pode contribuir para o aperfeiçoamento estético do artista: a guitarra de Gordon foi colocada toda no canal esquerdo e a de Nace, no direito. Isso confere movimento à música, com as duas guitarras enviesando interpolações improvisadas que nos puxam para diferentes lados. A voz dela reina soberana nos dois canais e é a âncora das faixas, a cabeça falante sobre esse corpo composto de um par de pernas que agem independentemente. O resultado disso é um álbum extremamente coerente, porém cansativo. Fica evidente através do registro que a música do Body/Head foi feita para ser experimentada ao vivo.

No palco, é como se estivessem nus. Duas pessoas nuas empunhando guitarras sobre um palco. São duas pessoas distantes, muito mais próximas dos pedais e dos circuitos elétricos de amplificação do que de qualquer figura humana. No palco, Gordon e Nace não são capazes de replicar aquele truque simples de mixagem e os momentos de improviso se transformam em erupções furiosas de ruídos que tentam dominar um ao outro. Em mais de uma ocasião, Nace e Gordon seguem por caminhos distintos. Enquanto ela fica presa em um acorde repetitivo, ele improvisa um solo parecido com o de “Beginnin’ to see the light”, do Velvet Underground. Enquanto ela dá vazão a uma série de ruídos extremamente agudos que nos atingem nas têmporas, ele desce cada vez mais grave às profundezas da escala musical, fazendo reverberar nossa caixa torácica. O efeito aqui é comparável à mixagem do álbum, pois novamente a música nos faz sentir a dualidade corpo/cabeça.

Há os sons das guitarras e o da voz humana articulando palavras, mas dificilmente poderíamos identificar o formato “canção” em um show do Body/Head. Há segmentos de um bloco contínuo, momentos de trânsito entre esses segmentos e a mudança para um novo bloco, onde Gordon introduz novas palavras. Em uma hora de show, não há pausas para aplausos ou qualquer outro tipo de brecha para que o público retome o domínio de seus sentidos. Em uma hora de show, o público é mantido em estado de submissão.

Os segmentos são caracterizados pelas palavras de Gordon e o conteúdo lírico do Body/Head aprofunda temas e formas explorados previamente em suas composições dentro do Sonic Youth. As letras de Kim Gordon frequentemente abordam assuntos relativos aos papéis desempenhados pelo masculino e pelo feminino na sociedade. Algumas de suas melhores composições são aquelas em que ela canta através de um eu lírico masculino, uma persona muitas vezes invasiva e incômoda que tenta persuadir alguém do sexo oposto. Outras falam através de uma persona feminina e tentam resolver assuntos inacabados com figuras masculinas. O que esses personagens têm em comum é que todos se encontram em situação confusa, ignorando se estão em posição de dominados ou dominadores. Estão submetidos a forças como a injustiça, o sexismo, o consumismo. São consumidos pela luxúria e pela ambição e nem ao menos se dão conta disso. Se antes, no Sonic Youth, Gordon falava disso com alguma ironia agressiva, no Body/Head ela é puro confronto.

Suas palavras são urgentes, muitas vezes delirantes. São gemidos, gritos, sussurros, filtrados por sua voz, agora mais grave, palavras que se transformam em gestos repetitivos, como tiques nervosos que são a manifestação corpórea de uma mente insana. O tom é cavernoso, de morbidez. Quando as palavras não dão conta, é o corpo quem assume. Gordon se joga no chão, esfrega a guitarra contra as caixas de som. Se o formato indie rock de “Kissability” amenizava esse confronto em 1988, a ausência de forma confere a “Actress” um realismo brutal em 2016. São canções que tratam de mulheres humilhadas, abusadas e traídas. É quase impossível não imaginar um paralelo entre essa inclinação narrativa e o divórcio de Kim Gordon em 2011.

No entanto, essa é uma abordagem injusta, pois reduz o trabalho do Body/Head ao desabafo de uma mulher traída. Se há alguma relação entre a obra e o divórcio, prefiro imaginar que se dê ao contrário, que o caso extraconjugal de seu marido funcione como a corroboração de uma tese que Kim Gordon vem construindo há mais de trinta anos e que agora se apresenta mais claramente do que nunca.

Para o corpo, há o desejo. Impuro, mas absoluto. Para a mente, há a vontade. Racional, mas poluída pela cultura. Ceder a um é trair o outro. Ceder aos dois é impossível. Cedendo a um, somos escravos do corpo. Cedendo ao outro, somos escravos da mente. É impossível não ceder, pois ceder a nenhum é matar a si mesmo. Resta decidir quem irá nos dominar e essa escolha irá nos assombrar por algum tempo. Decidimos quem irá nos dominar e imediatamente nos perguntamos se não deveríamos ter escolhido o contrário. Se o corpo está satisfeito, a mente está em dúvida. Se a mente encontra tranquilidade, o corpo se inquieta. No entanto, essa é a única maneira possível. Um corpo sem mente é um cadáver. Uma mente sem corpo não existe. Não é absurdo que essas duas entidades estejam aprisionadas uma à outra? Para o Body/Head, não há uma resposta. Há apenas a angústia do conflito.

Artigo originalmente publicado em O Inimigo, 24 de outubro de 2016.


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