Silence (2016): Scorsese e a Bolha de São Paulo.

No meio intelectual brasileiro — como era de se esperar — sempre nos deparamos com inculturalidades de primeira ordem. Salvo isso, vamos ao filme que é o que interessa.

O filme narra a história de três padres jesuítas, no século XVI, que vivem decidem sair de Portugal e divulgar a mensagem cristã no Japão. Estes três são Andrew Garfield, interpretando o devoto e complacente Padre Rodrigues, Adam Driver, o rígido e impaciente Padre Garupe e, por último, Liam Neeson ou o Padre Ferreira.

O primeiro a ir ao Japão, entre os protagonistas, é o Padre Ferreira, cerca de 15 anos antes dos padres anteriores (ele os ensinou acerca do cristianismo). Chegando no Japão, Padre Ferreira se depara com uma revolta governamental: o imperador do começo do Período Edo, do Japão Feudal, havia pregado a erradicação de cristãos no seu território, considerando-os uma ameaça a cultura local e a sua própria autoridade. Nada de novo na História Cristã. Desde então, cerca de aproximadamente 700 mil cristãos foram perseguidos e forçados a abandonarem sua fé e, em caso contrário, serem condenados a morte sob as mais cruéis torturas.

O Padre Ferreira, assim como tantos outros padres em missão, foi capturado pelo Império de Inoue Masashige. Todos os Padres foram torturados até a morte mais impiedosa, com exceção de Ferreira: foi lhe concedida a opção de abandonar sua fé e se tornar um homem de respeito na cultura japonesa, ter um bom cargo e apropriar-se de uma viúva com seus filhos, como permitia a cultura. Também há indícios que o Grande Inquisidor lhe ofereceu direito a concubinas. Uma vida boa para um bon vivant.

A busca pela verdade:

Os padres Rodrigues e Garupe saem — após muita briga — de Portugal (ironicamente, o idioma português é falado em Inglês, afinal, nenhum dos atores fala Português) em busca de sua Conquista do Paraíso. Viajam até a China, onde encontram Kichijiro, um alcoólatra exilado no Japão, que renegou sua fé, ao passo que sua família aceitou morrer em nome de Cristo; Kichijiro bebe para esquecer sua culpa, e peca para pedir perdão. Até o fim do filme. Chegando ao Japão, os bons padres percebem a miséria do local e o medo que assola os moradores: as tribos não se comunicam e vivem sob uma intensa desconfiança de denuncias anti cristãs. Qualquer um suspeito de ser cristão, teme ser acusado, teme ser descoberto. E o governo do Inquisidor, inclusive, paga muito bem para quem denunciar. Os padres vivem em total silêncio, no subsolo de uma cabana, a realizar missas com pouca hóstia, a rezar os sacramentos para japoneses que entendem pouco o Português.

Vivem assim até que o impaciente Garupe e o piedoso Rodrigues decidem se separar e conhecer — contra a vontade dos aldeões — novas aldeias que tenham mais qualidade de vida e liberdade. Aposta mais do que arriscada. Rodrigues então encontra muitos fieis e vive dia e noite fazendo confissões nessas aldeias. Realiza confissões e confissões até ser descoberto.

A tentação de Santo Antônio e a Fé

I pray but Iam lost. Am i just praying to silence? — Padre Rodrigues

Rodrigues vive, então, dias de horrível tortura após ser capturado, mas não por ser ele o torturado: o Inquisidor Inoeu Masashige aprendeu algo acerca dos cristãos. Torturou então, todos os fiéis por dias e dias, mantando-os as vezes, bem em frente ao padre. Era, agora, o Padre que tinha que abandonar sua fé para acabar com a matança, não apenas os cristãos. A única obrigação dele era pisar na imagem de Nossa Senhora e cuspir em um crucifixo para libertar, assim, os devotos. Durante dias eles se instruiram a não abandonarem sua fé, enquanto o bom padre era tentado várias vezes sobre a oportunidade de ter uma vida boa no Japão, de abandonar a miséria que estava, de ser bem visto pelo Imperador.

Seguiu-se dias e dias, até que o Padre foi levado ao ex-padre Ferreira: ele não só descobriu que Ferreira não apenas tinha abandonado a fé assumido cargos de valor na sociedade japonesa, como ele também escrevia contra o cristianismo. Se tornou um escritor anti cristão budista. Para menos delongas, o Padre Ferreira acaba se rendendo as tentações de cargos e se torna outro escritor budista trabalhando para o Imperador na identificação de produtos comercializados com europeus, verificando se são cristãos ou não.

E não só até a metade do filme, como diz a Inácio Araújo, da Folha de São Paulo, como até o final do mesmo, devemos ter em mente uma pergunta: o que queria Scorsese ao fazer o filme? Quais eram suas intenções. Isso está mais do que dado ao assistir a obra como um todo: não se trata de uma crítica ao sofrimento dos mártires cristãos, nem na banalização das barbáries japonesas. Mas sim, de um fato, em meio ao imenso, ao aterrorizante Silêncio de Deus: a nossa fé no mistério é, talvez, a única coisa que sobra. Mesmo que se tire todos os cargos, mesmo que pare de se falar em Deus e a ser padre.

O crucifixo no peito do Padre Rodrigues, então escritor budista ou mesmo o crucifixo de Kichijiro, mesmo após renegar sua fé e viver bem em sociedade, todos eles nos dizem que o Cristianismo não diz respeito ao que é de César e muito menos ao que é de Inoeu Masashige. Mas ao Cristo na Cruz. A cruz.