O rito vermelho
Eu ainda a esperava durante aquele anoitecer, suportando toda a névoa fria. Mas ela não poderia sair do cemitério North Hill. Não enquanto enterrada a sete palmos abaixo do chão. Nunca me acostumei com isto desde que ela faleceu. E este contratempo eu esperava burlar o quanto antes. Por isto contatei meu estimado amigo da faculdade de Medicina, Eduard Spinchon. O homem ideal para discutir as causas da morte, que eu custava a crer que eram as mesmas ditas pelos especialistas que analisaram o corpo de Anne Miles. Mas não apenas para isto, Spinchon dispunha de conhecimentos inacessíveis a homens leigos nas ordens ocultistas, cujos membros dominavam proeminentes discussões das ciências por todo o país. Levando-nos, eles, a uma revolucionária libertação das amarras da Igreja, à frente, pela mão direita da Ciência iluminadora jamais desvendada antes e, por trás, com a mão esquerda das Ciências Milenares condenadas pelo dogmatismo estéril dos livros de teologia clássica.
Não suporto falar de Anne como apenas um corpo. Para mim ela sempre estará viva. Estou certo de que ela ainda nunca dorme, como não dormia quando estava entre nós. E sua alma ainda deve estar angustiada em busca das respostas que ela procurava entre nós. O padre conhecido da família, William, negou-se a orar por sua alma. O enterro foi mantido em privado, como se espera para pessoas consideradas suicidas. Ela era tão popular, talvez por parecer tão doce e frágil. Era triste, contudo, e agora que se foi jovem, aos olhos do mundo, um aborto teria sido melhor do que sua breve existência. A cada dia se esforçava menos para esconder seu desgosto, e de alguém brincalhona, ainda que exteriormente, foi se transformando em uma mente questionadora e inquieta. William foi especialmente antipático em todas as ocasiões em que ela foi o assunto. Um hipócrita que vive de aparências, invejoso e ingrato, apesar de seu pai ter sido funcionário da família Milles durante muito tempo, cheio de medo de manchar sua imagem na cristandade, ainda mais depois do escândalo do tio de Anne, Richard Stevenson, visto com a prima de Anne, cujo nome pouparei para não trazer ainda mais dor a uma pessoa já entregue à penúria e abandonada pela família. Eu imagino que este caso tenha abalado Anne, visto que sua partida se deu poucos meses depois.
Peter Fordson me acompanharia durante todo o processo. Um amigo protestante de longa data, estudante de seminário. Conversamos bastante sobre a morte de Anne e Peter, assim como eu, sentiu repulsa pelo comportamento de William. Eu fiz a ele a pergunta clássica, talvez o mais complicado de todos os enigmas teológicas: “Por que Deus permitiu isso? Por que ele permite que o mal aconteça?”. E ele me respondeu que talvez Deus, ao contrário do que juram os teólogos, não tem o controle sobre tudo. A visão de Deus como o Primeiro Motor Imóvel seria uma distorção da física de Aristóteles, raptada por interesses de poder eclesiástico inspirados nos Césares do mundo. A explicação dele prosseguiu, dizendo que enquanto o polo primordial e conceitual de Deus é eterno, o polo consequente por sua vez é temporal e limitado, o próprio mundo físico, num processo de relacionamento com a humanidade, baseado no amor e na empatia entre eles. Resolvido, assim, o mistério da natureza divina e humana de Jesus. Na prática, Deus não sabe do futuro, nem tem o poder de determinar o destino dos homens, o livre-arbítrio é a raiz de tudo. Precisamos ajudá-lo com sua criação. A morte, inclusive, é um processo no qual cada eu é divinizado.
Eu não estava seguro de que, neste caso, Deus poderia ajudar em algo. Peter também era hesitante, então o convenci a testar se o mundo sobrenatural realmente poderia interferir neste, e se existiria vida após a morte. Spinchon indicou-me, antes de sair de viagem, um amigo de confiança. Steve O’Neil, um ruivo sorridente de carisma plástico, quero dizer, com a estranha persuasão de um vendedor que nunca é pego desprevenido, dom este evidentemente político e empresarial. Conversamos brevemente, eu concordei com qualquer coisa que ele tenha dito para ir embora o mais rápido possível. “Ah, então você é o rapaz do pedido. Estamos providenciando isso. Spinchon tem uma grande estima por você, sabia? Não se preocupe. O que fazemos não é em nada diferente do que os grandes homens da sociedade fizeram para erguer a civilização. É como dizem: For without a cement of blood no secular wall will safely stand”. Eu não entendi a referência, mas no momento não importou. Nem mesmo sei o que Spinchon esperaria de mim em troca deste favor, dada a minha posição na alta sociedade, ou se ele ganharia algo com isto.
Mas outra situação ferve em minha memória. Peter, eu e alguns companheiros resolvemos beber. Peter bebeu moderadamente, mas não posso dizer o mesmo de mim nem de nossos amigos luteranos. Logo nós estávamos criando escândalo. Eu falei do quanto faria tudo para ver Anne novamente, nem que por um breve momento. Eles passaram a rir e brincar, mas Peter estava levemente sério, ou se esforçando para isto. Eu já não me lembro das histórias de fantasmas que contamos, mas as palavras de Fordson bateram em minha cabeça como um martelo. “Vocês se lembram de Hamlet? Quando o fantasma do pai dele aparece no jardim? Aquilo seria o pai dele de verdade ou o demônio disfarçado? Pela tragédia que sobreveio ao príncipe, é difícil dizer. Entendemos que o que foi dito era verdade sobre o tio dele, mas quem sabe o demônio não poderia dizer a verdade, também? Há um intenso debate entre os exegetas para saber se, no Antigo Testamento, a pitonisa de En-dor realmente fez o profeta Samuel subir dos mortos para falar com Saul. Quer seja o diabo, quer seja Samuel, o rei Saul terminou morto, como o espírito disse.” Fomos para casa naquela noite. Eu voltei com a dúvida acerca de tudo o que ouvi. Na hora isto preenchia tanto minha cabeça que não me perguntei se alguém teria ouvido nossas conversas.
E então chegou o dia que até hoje não compreendo. Conforme marcado, estávamos Peter e eu adentrando os portões do cemitério. Abrimos a porta da recepção e, imediatamente, meu coração disparou e minha cabeça doía. Era difícil respirar depois do que vi. À frente estava uma figura humana, totalmente coberta de preto com vestes que pareciam sacerdotais, mas de nenhum culto feito às claras. O rosto atrás de uma máscara branca, e a cabeça escondida por trás de um capuz, além de um chapéu negro com uma coroa vermelha ao redor. “Vocês chegaram na hora correta.” Eu permaneci assustado, sem responder. “Não está me reconhecendo? Ela já está despertando.” Nesta hora era como se Peter tivesse deixado de existir, porque de maneira nenhuma eu poderia prestar atenção a outra coisa. As velas iluminavam a sala ao redor do caixão fechado.
O caixão se abriu lentamente, por dentro, e eu me perguntava se não era apenas alguém vivo dentro dele, uma piada ou truque. Mas era Anne quem o abria. Ela se movia lentamente, como em torpor. Eu não podia a enxergar perfeitamente, mas estava mais branca do que antes. Então ela me olhou fixamente, com uma expressão assustada.
— Por quê? Por que você me trouxe até aqui?
A sua fala era sonolenta. Sua boca estava dormente e a voz desfalecia. Como se ela tivesse algo dentro da boca. Eu tomei coragem e respondi:
— Precisava te ver novamente. — Eu percebi que, no fundo, dizer isto não explicava nada. Mas o que eu poderia dizer?
— Não, você não pode ter feito isso. Eu não acredito — ela disse. Seu corpo se movia lenta e desesperadamente e ela soluçava, chorando. Era como se o choro não conseguisse sair plenamente.
— Eu apenas queria saber o que aconteceu. — As coisas pioravam a cada momento até que ela se dispôs a falar freneticamente.
— Você não entende. Nenhum de vocês entende. Isso nunca vai parar. Tudo o que você fez foi inútil. Tudo o que eles fizeram. Não, foi pior do que isso. Você não entende? Nada do que vocês dizem adianta. Nada do que você possa dizer vai amenizar isso. Vocês apenas fingem. Fingem que não vão morrer um dia. Ou o que é pior, vocês superam isso. Superam a perda de alguém como quem é anestesiado. E vocês culpam qualquer coisa que lembrem vocês disso!
— Anne, eu sinto muito…
— Onde ela está? Onde?
— Quem? Você está falando da sua prima?
— Ela estava grávida. Você sabia?
— Do seu tio? — eu perguntei.
— Não. Não! Não! Não acredito que você fez isso — ela começou silenciosamente, abanando a cabeça, mas logo começou a gritar. Anne olhou para o lado e eu reparei, finalmente. Havia uma cesta sobre a mesa. Toda envolta em lenços negros e manchada de vermelho. Era escuro demais para ter certeza do que se tratava. Mas parecia uma oferenda.
— O quê?…
— Saia daqui! Suma da minha frente! Você é um monstro! Um monstro!
Subitamente notei que Peter passava pelas minhas costas e corria para fora. As velas ao redor da cesta chamuscaram os panos negros. Eu dei dois passos, de costas, enquanto Anne gesticulava. Até que decidi correr sem olhar pra trás. E ela continuava gritando.
— Eu não dei o que você queria? — o homem mascarado disse antes que eu pudesse me livrar daquele local.
Eu remoía estes acontecimentos todos os dias. As notícias de um incêndio ocorrido no cemitério North Hill, quando chegaram a mim, deram-me a certeza de que foi aquele homem quem a causou, e que logo as evidências apontariam para mim. Mas nada disto aconteceu. A versão oficial foi de que não passou de uma depredação.
Uma carta, mais tarde, chegara para mim. Spinchon desculpava por seu amigo O´Neil não ter podido comparecer, devido a um contratempo com o padre William. Ele escreveu a carta do próprio punho e a assinou. Eu não entendo o porquê. Não havia nada explícito que pudesse o ligar aos fatos, ainda assim, uma estranha observação saltava aos olhos de quem lesse: “O fruto do Casamento entre o céu e o inferno está sendo providenciado para que tudo termine bem.”
Pergunto-me até hoje o que foi tudo aquilo. Desde então não tenho mais falado com Peter, nem com Spinchon. Evito-os. O padre William pediu afastamento. Eu acabei descobrindo que ele já foi apaixonado pela prima de Anne. A recusa dela foi uma das coisas que o levaram a ser padre, coisa esta que ele jamais superou e da qual reagia com ódio sempre que faziam a menor menção e, segundo as más línguas, faria qualquer coisa para ter sua revanche dois do escândalo. Ou a menos é o que dizem. Não pude confirmar. William desapareceu. E com ele as linhas que dissolveriam a névoa entre a mentira e a verdade desta história.