Envelhecer, sim. Isolar-se, jamais!

À medida que envelhecemos, passamos por transformações importantes. Assim como nas demais fases da vida, algumas mudanças são visíveis e outras não.

Fisicamente, conforme envelhecemos, nossa pele fica diferente. Nossos tecidos celulares passam a ter mais dificuldade em regenerar-se, perdendo a elasticidade e a resistência que apresentavam antes. Nos machucamos com mais facilidade, e a cicatrização é mais lenta e requer maiores cuidados.

As rugas aparecem em função da diminuição de colágeno e do afrouxamento da massa muscular, podendo ser mais intensas nas pessoas com histórico de maior exposição à luz solar, tabagismo ou doenças crônicas.

As mudanças que não são facilmente visíveis são aquelas em nosso modo de pensar e agir. Com a velhice, assumimos outra posição social, seja junto à família, amigos ou colegas. Muitas vezes, diminuímos a frequência dos encontros com as pessoas de quem gostamos, passando a optar por atividades solitárias ou em dupla.

Esse fenômeno pode ser entendido de duas maneiras: alguns especialistas acham que o afastamento social é algo inerente ao envelhecimento; segundo essa teoria, nessa fase, as pessoas atingiriam um diferente equilíbrio subjetivo, marcado pelo distanciamento psicológico e diminuição das interações sociais.

Outros profissionais que trabalham com o público 60+ (dentre os quais me incluo), vêem tal afastamento como resultado de uma dinâmica mais ampla. Acreditamos que, para além das inevitáveis mudanças biológicas e de saúde pelas quais passam as pessoas conforme envelhecem, suas necessidades psicológicas e sociais permanecem muito semelhantes às dos demais adultos.

Portanto, mesmo passando por mudanças físicas, visíveis ou não, seguimos nos beneficiando de encontros com as pessoas de quem gostamos, jantares em família, passeios, idas ao cinema ou ao café. Dessa forma, o afastamento de atividades, o menor contato com as pessoas e a diminuição na participação em eventos sociais ocorre contra a vontade da pessoa com mais de 60 anos.

Qual seria, então, a causa desse fenômeno? Por que as pessoas que ingressam na velhice estão cada vez mais isoladas em suas casas, ociosas e solitárias?

Acredito que não é por que elas querem (mesmo que algumas prefiram uma vida mais tranquila e afastada). A causa desse fenômeno é mais complexa, e reside na forma como a sociedade está organizada, nos dias de hoje.

Em primeiro lugar, existe uma grande carência de mecanismos sociais para dar conta das necessidades e desejos do público 60+. A revolução da longevidade tem ampliado muito nossa expectativa de vida, mas os espaços e serviços destinados a nos atender nessa fase da vida não crescem na mesma proporção.

Isso se deve à mentalidade que construímos ao longo dos últimos anos, que relaciona a velhice ao fim da capacidade de participação na sociedade. Talvez essa visão se justifique se pensarmos na maneira como envelhecíamos há 100 ou 200 anos atrás. Entretanto, a partir do surgimento do que chamamos de “Nova velhice” (confira nesse texto), é inadmissível que continuemos assistindo às pessoas com mais de 60 anos trancafiados em casa, sem ter o que fazer.

Se a ciência já vislumbra que as novas gerações viverão, pelo menos, até os 100 anos de idade, urge repensarmos o lugar que o envelhecimento tem em nosso imaginário e em nossas cidades. Quando falamos em “lugar”, nos referimos tanto a espaços físicos de convivência, atividades e cuidados quanto ao lugar subjetivo que o envelhecimento ocupa em nossas mentes.

Sabemos que, enquanto não houver mudanças na forma como pensamos a velhice, não seremos capazes de transformar o ambiente físico urbano, tornando-o mais adequado para todos. Por esse motivo, convido a todos a refletir: Como desejamos envelhecer, nos próximos anos? O que estamos fazendo para que isso de fato ocorra?

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