Por que fazer análise?
Quando morei em Buenos Aires, durante minha especialização em Psicanálise, percebi como era comum a prática da psicoterapia ou da análise, entre os habitantes daquela cidade. Buenos Aires tem o maior número de psicólogos por habitantes, no planeta. Da mesma forma como os pais matriculam seus filhos em escolinhas de esportes, línguas estrangeiras ou informática, a procura por psicólogos e psicanalistas se dá de maneira natural, já incorporada à cultura e ao cotidiano dos Portenhos.
Mas, qual será o motivo de tal procura? Será que os habitantes daquela cidade sofrem mais do que os demais? Seriam eles acometidos, com mais frequência, pelas diversas formas que o sofrimento psíquico pode assumir?
A resposta está na forma como os Portenhos encaram a própria vida. Longe de valorizar apenas conquistas pragmáticas, ligadas ao trabalho, consumo ou ascensão social, o cidadão médio de Buenos Aires sabe que a reflexão sobre seu percurso de vida é imprescindível para sua realização pessoal.
Não se trata de apenas procurar um psicólogo ou psicanalista em função de um “transtorno” ou “distúrbio” diagnosticados pela área médica. Mas de uma procura por explorar a complexidade do desconhecido sobre nós mesmos, que alimenta nossas interrogações a respeito da maneira como conduzimos aquilo que mais importa em nossas vidas.
No Brasil, vivemos em uma época carente de espaços de reflexão. Talvez por habitarmos uma terra de tantas desigualdades e urgências, que são prementes para a sobrevivência dos que aqui vivem, deixamos de lado a tarefa de dedicar-nos àquilo que temos de mais humano: nosso próprio desejo.
Nada pode ser mais importante do que reconhecer aquilo que desejamos ser, fazer ou conquistar, independente de modas ou do que nos dizem ser o melhor para nós. Dessa forma, a psicanálise valoriza aquilo que nos diferencia, que nos torna únicos. Ao fazer uma análise, descobrimos que nossas diferenças devem ser enaltecidas e celebradas, para que possamos encontrar o fio que conduzirá nossas escolhas.
As particularidades que assinalam quem somos fogem a qualquer classificação, tornando inútil buscarmos uma definição a respeito de nosso funcionamento sob o nome de uma doença ou transtorno. Sabemos que o sofrimento é inerente ao ser humano. Mas, quando descobrimos que podemos transformar esse sofrimento no motor para a mudança que desejamos em nossa vida, deixaremos de considerá-lo apenas um mal a ser extirpado. Conhecendo o que esse sofrimento diz de nós mesmos, teremos condições de torná-lo um aliado, e não um vilão.
Num mundo repleto de respostas prontas, dedicar-se a explorar a parte desconhecida da própria intimidade é uma tarefa para poucos, infelizmente. Apesar disso, torço para que nos espelhemos em nossos vizinhos Portenhos, procurando espaços de fala e de questionamento a respeito de nossos desejos. Afinal, precisamos aprender que fazer análise não é “para loucos”, e que a verdadeira insanidade é passar uma vida inteira sem nunca se perguntar a respeito daquilo que é realmente importante para nós.
Matheus Sgarioni
Psicólogo, dedica-se ao atendimento de pessoas com mais de 60 anos.
Fone: (51) 8437 6383