crônica: Escritor inanimado.

Adam Lupton. (@adampaints)

Luminária branca e preta de bordas arredondadas iluminava com luminus entre seus esporos elétricos o único ponto diante a parede do quarto geometricamente quadrado que, em vista, habitavam dois quase seres, um desimportante dorminhoco e o outro, escritor bebido em insônia.

Plantou a si mesmo que não gostava de dormir a noite desde quando fora feliz, ou melhor, criança e hoje cultiva as florescências da insônia. Sem esbravejar aos céus e aos inexistentes deuses — nessa hora –

Escreve. A escrita é sua prece, é sua divindade e também seus sete demônios.

Debruçado em sua mesa desarrumada entre garrafas d’água — imaginarias de vinho — artigos de psicologia, caixas rosadas, lenços azuis, remédios para gripe — que acha que deviam ser antidepressivos — desodorantes, frascos de perfume que são porta moedas, computador, dinheiro, livros de fantasia e copos. Debruça o caderno manchado de tinta azul. Ora, se não é um antiquado.

Tinha a seus ouvidos costurados as notas de jazz antigo e blues, dos anos quarenta, cinquenta, sessenta. Se pegava imaginando por vezes ou outras em um café, em Paris, coroado por uma cartola, uma barba e bigode que lhe adornavam com respeito. Pernas cruzadas feito um fino, cor branca, cigarros e olhar de desdém para os parisienses que lá estavam na mesma cidade. La belle epoqué.

Pouco sabe se a música, os trajes e a época condizem. Antiquado e atemporal.

Aperta os pés e as mãos em angústia por nada. Por tudo. Não beijarão aquelas suas pálpebras de forma alguma, será uma crucificação em nuvens de espinho.

Acordar amanhã de manhã ao raiar do primeiro carmesim, forçado pelos outros, pela sociedade, pelo todo de não muita coisa que faz parte. Ou não.

Levantar-se-á, tirará os shorts, colocará a calça, as meias sempre brancas, o tênis vermelho ou preto e parará por alguns segundos, já cansado e pasmo para então continuar: Camiseta, escova de dentes, perfumes, fechar de portas, descer escadas, subir ruas, entrar em portas, sons de bocas, levantar, voltar e se perguntar, se sentir e provavelmente dormir para escapar, sabendo que isso é um chamado para a dama da noite — insônia — mas é visível que pouco se importa.

Dançará conforme passos tortos por quanto ser forçado a aguentar. Não é um dos mais corajosos.

Sentado em frente sua única luz está deslizando a caneta esferográfica. Parece vivo.