O monstro da lagoa

Ontem eu não dormi. Os assassinatos na Sé, a morte da criança na praia, tudo isso me tirou o sono. A sensação de impotência frente à violência naturalizada.

Quem define as fronteiras? “Talvez o mundo não seja pequeno”. A quem foi dado o direito de permitir ou não uma segunda existência que não a nossa em qualquer espaço. ME pergunto se não está tudo errado desde o começo?

Como dormir sabendo que por um acaso (ou não), alinhamento dos planetas (ou não), decisão do olimpo (ou não), eu nasci e pude chegar a ter a vida que tenho (ou não?).

Como saber que tudo isso é real e não um sonho dentro de um sonho? É tudo tão fictício e tão real que assusta. São tantas dores e amores. Seria tão mais fácil acreditar que é um sonho. Já tentou olhar para os seus dedos?

Estou acordado e apático. Como calar a dor que não é só minha e engolir a labuta diária que não é — a — minha?

“Como é difícil acordar calado” se na calada das minhas noites os dias quentes afogam a esperança de um novo mundo para além do mar.

Vi, dia desses, imagem esclarecedora compartilhada por uma amiga, Leticia: “Você precisa entender que ninguém põe os filhos num barco se a água não for mais segura que a terra”.

Daqui da arquibancada, sofro de medo. Sinto que a qualquer momento serei eu a ver emergir o monstro da lagoa. Sinto que o rubro escorrendo no vídeo, na TV, um dia será o meu, o do meu amor e do meu amigo.

Eu tenho medo, “mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar”.

Talvez, e só talvez, a vida não seja um fato consumado. Talvez seja apenas uma bebida amarga com gosto de morte. Melhor seria, quem sabe, ser filho da outra realidade, a qual Chico chama “menos morta”. Como ele, quero lançar um grito desumano. Esse silêncio todo me atordoa, mas não estou mais atento, sinto cada vez menos vontade. Quero longe de mim esse cálice. Ou ser tragado de vez. Do que vale ter boa vontade se é tão difícil abrir a porta?

Mas sabe? O meu amor tem um jeito manso que é só seu. Um jeito que me faz acreditar. Você, que vive, que se preocupa com o lado de lá, de cá e até com o que não se preocupa com lado algum, é o meu amor. Você que acredita que há solução, que há mais que um “por que não? ”.

Vocês todos e tantos mais que, como as pessoas do centro da cidade, encontram forças para sacrificar-se em nome de libertar-se desse pileque homérico que como um “falsiane” fingiu sair de cena, completou cinquenta e botou para “dormir” 434.

Eu sei lá.

Só não consegui dormir.