murder on the dance floor

Evitando entrar na questão do que torna uma música ou um álbum um “clássico”, o que queremos, enfim, ouvir na boate?
Começo daí porque não precisa ir muito longe na noite, em especial a dita “pop”, para até mesmo repensar a função de um DJ. Antes, era a pessoa que te apresentava o que está rolando de fresco na música. Lançava tendências, e “dava” carreiras. Claro que isso se devia muito ao acesso restrito à música, a certo modo. A democratização do acesso ao trabalho de artistas foi atingida em sua plenitude com o advento da internet, e antes disso existia todo um sistema “físico”. Você precisava comprar encartes, ouvir em casa ou em uma loja, ou especialmente nesse caso, se dirigir a uma boate para ouvir que se tinha de novidade.
O boom de serviços de streamings, como Spotify e Deezer, reconfiguraram a indústria. Posso ter acesso quase irrestrito a qualquer música do planeta, e em segundos. Posso modelar uma playlist ao meu gosto pessoal, e perigosamente conceder ao algoritmo do aplicativo a permissão de que ele só me mostre o que quero ouvir. Assim como diversas outras camadas da nossa vivência dentro da internet, nos fechamos em bolhas. O problema parte quando levamos esse pensamento de bolha para um lugar democrático e plural em sua essência, como é uma pista de dança.
Daí o “fator surpresa” dos setlists vai se arrefecendo cada vez mais. O pensamento de achar que as pessoas querem ouvir na pista são as suas playlists pessoais está se impermeando neles. E em tempo, não estou querendo colocar mais essa na conta do Mal da Tecnologia (deixo essa para os baby boombers), mas com tamanho acesso à inúmeras coisas novas, não deveríamos estar buscando mais e mais coisas distintas? Ou até mesmo sendo mais severos com o que estamos pagamos para ouvir?
Não acho necessariamente que precise haver uma hiper valorização do que já foi feito. Nossa geração vive bombardeada pela nostalgia, e em especial a nostalgia dos outros. Não vivemos — e nós aqui são os infelizes millennials na faixa dos vinte e poucos e tantos — a década de 1980 ou 1990 para nos conectarmos automaticamente com o que foi feito nesse período. Às vezes engolimos uma nostalgia quase que automatizada, feita para despertar o que não vivemos. E quando é a “nossa” nostalgia, sempre vai pro lugar comum.
Acredito que possuímos as ferramentas necessárias para absorver o melhor, e exigir isso da pista de dança. Além do que, claro, começar a ampliar os horizontes para o que vem sendo produzido hoje, em vários nichos diferentes.
(Obviamente estou falando de uma maneira grosseiramente geral. Há diversas festas e vertentes específicas para o que você quer ouvir, cada uma com suas complexidades).