O que Ney Matogrosso quis dizer?

“Que gay o caralho, sou um ser humano”. Essa frase pode ser interpretada de duas formas. Uma: renegação da sexualidade. Outra: uma rejeição do peso do rótulo. Da entrevista que Ney Matogrosso deu à Folha, publicada dia 18, saíram ambas.
Pensei que não, mas é necessário lembrar que Ney Matogrosso não é Clodovil, não é simplesmente um homem gay. É um homem gay que cantou fino, rebolou e assumiu amores públicos. Fingiu orgasmos nos palcos. Ou eventualmente os teve, de fato. E isso não hoje em dia, quando o sexo é embalagem do universo pop, mas sim há 40 anos atrás, quando existia uma ditadura militar.
Isso tudo não o isenta de críticas, claro. Mas me parece um exagero e, no limite, uma distorção de sentido dizer que, depois disso tudo e ainda sendo um personagem provocador, Ney Matogrosso esteja voltando para o armário.
Diga-se que Ney tem um histórico de declarações polêmicas. Em 2013, entrevistado em uma TV de Portugal, esbravejou contra o Bolsa Família com retórica típica de uma certa direita que enxerga no programa um fabricante de encostados. Uma derrapada que fez com que Ney soasse reacionário aos ouvidos de muita gente de gerações mais novas ou não.
No caso da entrevista de agora, alguns grupos acusaram Ney de ser despolitizado porque ele se recusa a se definir entre esquerda ou direita. Mais: porque se recusa a ser definido como “o gay”.
Já me deparei algumas vezes com dilema semelhante. Não escondo minha sexualidade, nunca quis esconder, nem preciso. Pago as consequências da minha escolha e também vivo as — muitas — felicidades que ela me traz. Mas ser definido em todos os aspectos da minha vida, da profissão aos gostos artísticos, pela minha sexualidade, é algo tão aprisionador quanto o armário para o qual, dizem, Ney quer voltar (e ele esteve dentro dele, algum dia?).
E daí que Ney Matogrosso não quer dizer que é um panfleto? Como ele mesmo diz, nem precisa: ele sempre foi, mesmo sem precisar lembrar a todos deste aspecto a cada segundo de sua carreira.
É uma sutileza, uma visão artística do que ele fez, faz e sempre foi. Pena que sutilezas não sejam toleráveis na época das caixinhas.
P.S.: vida longa a Ney Matogrosso, merecidamente homenageado ontem, no Prêmio da Música Popular Brasileira.