Os gatos de Istambul

Disputa de território entre duas gangues… Felinas.

A briga entre defensores de mães/pais de pet e seus detratores no fundo expõe a projeção que fazemos de características humanas nos animais que possuímos, e a quem atribuímos o epíteto de “bichos de estimação”. E aos milhares de bichos que andam pelas ruas, o que lhes resta? Em Istambul, eles viraram filme.

Kedi foi produzido para o YouTube Red, plataforma de vídeos on demand do site do Google, e retrata sete gatos que vivem na cidade turca e não têm exatamente donos, mas vivem perto de habitantes de algumas regiões da cidade.

Conta a lenda que a variedade de felinos que habitam Istambul surgiu na época em que a cidade era um entreposto comercial entre a Europa e a Ásia, ainda nos tempos do Império Otomano: os navios tinham gatos, que se encarregavam de caçar os ratos que tentavam consumir a carga, quase sempre de comida. Quando as embarcações atracavam na cidade, os gatos desciam junto com os marinheiros, mas esqueciam de voltar e ficavam por ali. Os cruzamentos entre eles fizeram com que, hoje, Istambul tenha gatos de todos os tipos imagináveis. E eles estão por toda parte, mais ou menos como os cães nas grandes capitais brasileiras.

Os sete gatos que o filme acompanha mais de perto são personagens definidos pelas ações filmadas pela equipe e pelas revelações de seus cuidadores humanos. Há a gata que deu cria e virou caçadora de comida que pega nos cafés da vizinhança pedaços de pão e carne dados pelos clientes e os leva para os filhotes; o gato que vive em um restaurante à beira-mar e ajuda a controlar os ratos da região; a “psicogata” que espanta todos os gatos estranhos e as gatas que chegam perto do seu companheiro. Estes e outros protagonistas são colocados lado a lado com os humanos que convivem com eles e com os milhares de gatos das ruas da cidade.

Parece doce, mas a vida dos bichanos é assombrada pelos gigantescos arranha-céus que Istambul ganha de maneira cada vez mais rápida. Nos terrenos onde antes se acumulavam mercados, vilas, casas e muitos gatos, os gigantes de cimento expulsam os antigos moradores, humanos ou não.

Kedi é um filme sobre a mudança de uma cidade milenar e os efeitos disso nas antigas formas de habitá-la. Mas esse discurso é muito suave, talvez pela pouca interferência dos documentaristas na história. Tudo é contado pelas imagens, pelos donos ou cuidadores de gatos que são entrevistados, ou então pelos próprios gatos. As subliminares pichações Erdo-Gone nos muros, um Fora Temer turco, passam batidas na narrativa. Ainda que fale sobre a ocupação dos espaços da cidade pela cultura dos moradores, Kedi não é um filme político. Mas também não é um gif de gatos gigantesco, como pode parecer inicialmente.

Pena que esteja em poucas salas de cinema. É um ótimo filme para entender o fascínio que os displicentes felinos nos despertam, em todos os continentes.

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